“Até aqui tratava-se de saber se a vida deveria ter um sentido para ser vivida. A partir daqui, pelo contrário, impõe-se nos que ela será vivida até melhor por não ter sentido [...] viver é fazer viver o absurdo” afirma A. Camus em O Mito de Sísifo. Em suma, não me analisem discursivamente, abdiquei da coerência.
Após longo hiato criativo, aqui estou eu. Não é que eu tenha esquecido o blog, até me ocupei muito dele: apaguei vários posts e comentários, cogitei deletá-lo, mudar minha foto, o estilo, o layout. Não que me tenha acontecido algo grandioso, mas preciso de movimento, se eu fosse estável, previsível, não seria Marcela Isis.
Quando comecei a escrever e elogiaram meu “blog intimista”, foi um insulto. Hoje não apenas reconheço o adjetivo como me orgulho dele: todo autor se insere no texto, mas graças ao tom intimista, posso fazê-lo sem pudor…
É desrespeitoso um blogger apagar comentários, desculpem, prometo não fazer novamente (o problema é que não costumo cumprir minhas promessas). Fiz porque eu precisava apagar (literal e metaforicamente), queria papel em branco, adoro recomeçar.
A vida às vezes nos convoca à desconstrução, ou melhor, reinvenção, daí trocamos a máscara. É provável que, numa dessas rupturas, a pessoa se ache (ou se perca). Por vezes se busca autoconhecimento, às vezes se foge exatamente disso, não é à toa que O Lobo da Estepe de Hermann Hesse “[...] suspeita e teme a possibilidade de um encontro consigo mesmo, e está cônscio da existência daquele espelho no qual tem uma necessidade tão amarga de olhar-se e no qual teme mortalmente vê-se refletido”.
As pessoas mudam, numa perspectiva humanista, para Parmênides nada muda porque a essência permanece. Já Heráclito afirmava que tudo muda daí a impossibilidade de banhar-se mais de uma vez na água do mesmo rio. O grande paradoxo é que ambos estão corretos: se tudo muda, se a mudança é constante, previsível, o que há de novo nisso? Nada muda.
Chega de mudanças, o blog e o layout permanecem, só para fazer diferente , vou deixar tudo igual.
K: Não acredito: você colocar silicone? Absurdo! Você quer ser reduzida a um peito?
M: Não, a dois!
K: Se você colocar, eu perderei absolutamente o interesse e a atração por você.
M: Então é você quem está me reduzindo a um par de peitos…
A reação dele foi esta, nem me deu tempo de falar sobre o corpo e o prazer da profanação, nem me deu tempo de contar que eu passaria a usar camisetas brancas molhadas…
O corpo humano sempre foi cercado por interditos, a Medicina por muito tempo deixou de avançar por causa da proibição das autópsias e ainda hoje o vemos com diversos tabus, sejam as roupas, o nudismo, piercings, tatuagens, ainda mais em se tratando de sexualidade. Mesmo com a banalização contemporânea do corpo e do sexo, tememos o corpo, suas paixões inconfessáveis, os movimentos eróticos.
Ele gostava de seios grandes, daqueles da TV e revistas, mas não queria os meus o fossem. Talvez o tenha incomodado a conotação sexual do silicone, o apelo a uma técnica cujo objetivo é um resultado explicitamente estético/sensual, uma sensualidade aberrante, evidente (não apenas para ele). Pode ser que ele, pessoa cult, tenha se incomodado em me ver dar tanto valor à aparência a ponto de recorrer a uma técnica invasiva, a velha dualidade mente/corpo.
Talvez a violência do ato o assuste: o dilaceramento e transfiguração do corpo. Pode ter a ver com autenticidade ou a ele importe o objeto do desejo (eu) em sua totalidade intacta, pura, imaculada, a questão se limite ao papel da pureza e da beleza no erotismo e, acima disso, a posse do objeto…
Se por um lado a diferença entre instinto sexual e desejo erótico surge da passagem da sexualidade livre à contida, por outro o interdito convive em cumplicidade com sua transgressão. Ele não concordava.
Eu sei que o objeto deve corresponder à interioridade do desejo, que a escolha e a atração dependem de fatores complexos, que a beleza varia de acordo com a inclinação de quem a aprecia. Em suma: ele era o cara, eu queria dele atração e fascínio, não pude arriscar, desisti do silicone.
Claro que, ao definir com autoridade os limites para o meu corpo, ele começou um jogo de poder que fatalmente perderia. Inteligente que é, ganhou em outra arena, ele me fez lembrar do que estava em jogo e eu não pude (literalmente) pagar par a ver…
Em pleno 8 de março, dia em que escrevo este post, o faço consciente de que surgirão críticas feministas (veladas ou não) e aguardo por estas ansiosa. Minha única dúvida é se atacarão o fato de eu querer me amoldar desesperadamente a padrões estéticos de objeto de desejo masculino ou fato de eu não fazê-lo por submissão à vontade de um homem.
Faço minha defesa preliminar alegando que, se a autoras das críticas tiverem o prazer de conhecer (em sentido amplo) a pessoa de quem falo, não se importarão com esse tipo raciocínio sobre o poder fálico. No mais, danem-se os apelos feministas, eu não faço tanta questão assim de ser uma mulher de peito!
Comprei Amor Líquido de Zygmunt Bauman para presentear a um affair, mas gosto tanto do autor que não resisti à tentação de ler antes de entregar. Por ironia do destino, antes que eu chegasse ao meio do texto, o caso acabou e eu aprendi a lição: da próxima vez compro um livro pocket.
Este livro trata exatamente da efemeridade e descartabilidade das relações pós-modernas: os relacionamentos são curtos, frágeis e não duram mais que a conveniência, pautados no pragmatismo e em uma certa impessoalidade.
A Modernidade Líquida é marcada pelo ritmo acelerado das mudanças e da vida, a compressão espaço-temporal, o encolhimento do planeta com o desenvolvimento dos meios de transporte e comunicação, a superabundância factual e a exponenciação das possibilidades de encontros. Em suma: tua rede de contatos pode ser amplíssima e você pode conhecer milhares de pessoas interessantes, inclusive em outros continentes. Há tanto a experimentar…
Na contemporaneidade, pairam ainda o relativismo moral e cultural, o individualismo, o alto investimento na liberdade. Embora ocorra a massificação, há uma percepção peculiar do outro, da coletividade e a noção de cidadão é substituída pela de indivíduo.
Guy Debord não escreveu sobre o amor, mas afirmou que as relações mercantis se estenderam para a totalidade da vida cotidiana. A ambigüidade é intrínseca à relação afetiva pós-moderna, primeiro, a própria incerteza de sua existência enquanto tal, também não há SIM nem NÃO: estar de forma plena com uma pessoa determinada implica numa recusa a uma infinidade de possibilidades (e quantas existem no mercado!!). Por outro lado, é necessário não descartar essa determinada pessoa como alternativa, ao menos enquanto não haja outra mais instigante (se bem não precisam ser alternativas excludentes).
Assim, as pessoas ficam, mas não estão e não devem expor muito esse tênue vínculo em sua vitrine porque poderia afugentar possíveis outros interessados. Há um jogo de esconde-revela interessante nas relações que é mais notório nas amorosas porque estas, geralmente, pressupõem exclusidade (ou sua impressão, simulação), pessoalidade e singularidade.
Óbvio que o tipo de relação em comento não esgota a realidade. É apenas um fenômeno que se destaca e, talvez por isso, tenham um significado peculiar outros tipos de relacionamento e seus vestígios evidentes: depoimentos, tatuagens, alianças, declarações, serenatas, enfimdemonstrações públicas de afeto. Um exemplo detestável são os carros de som que fazem aos quatro ventos declarações românticas.
Estes exemplos significam a afirmação da existência de um vínculo afetivo (ou de uma intenção) a todo um público para dizer ao outro que não importa que, ao fazê-lo, sejam anuladas outras possibilidades.
Afirma-se o afeto na medida em que se dá ao outro mais que a mensagem em si: o espetáculo do afeto ampla e irrevogavelmente proclamado, tornado público, assim como a proximidade e a singularidade. Como escreveu Orwell: “o meio é a mensagem”.
Dedico este texto a A., na esperança de que isto me exima de aparecer na TV e de pagar por um dos malditos carros de som de mensagens. Claro que o faço na expectativa de que, ao postar este texto, a mensagem e o meio ainda conservem o sentido.
Não se enganem com o título, não é sobre a dupla condição das mercadorias (signo e objeto) que trata esse texto, muito menos de massificação e consumo, prefiro a tudo isso o trivial.
Como típica soteropolitana, fui assaltada mais uma vez quando voltava de uma festa e levaram minha bolsa de mão que continha meu celular e minha máquina fotográfica (com as fotos que restavam do ex-namorado), em suma, levaram um pedaço significativo da minha memória. Lamentei não apenas por um materialismo consumista, acima disso, pelas recordações que me foram tomadas.
Soa piegas e cristão (que redundância), mas até de acontecimentos ruins é possível extrair coisas positivas: livrei-me de fotos, recordações e contatos que por covardia ou conformismo ainda faziam parte do meu mundo por mais anacrônicos que fossem. Não levaram apenas maravilhas eletrônicas, levaram parte da rocha de Sísifo e da minha cruz.
É engraçado o apego desesperado que temos a fatos do passado e a nossa recusa em aceitá-los enquanto tais, seja um amor perdido, seja um amigo que já não compartilha conosco ideais ou convivência. A forma como protegemos nossas recordações, construímos relicários e não nos libertamos de pessoas, padrões ou conceitos (por mais caducos que sejam) nos faz carregar muito peso; lembranças, mágoas, rancores, remorsos que não apenas implicam em sofrimento como nos distrai do presente.
Não afirmo a necessidade negar ou fugir do sofrimento e sim celebrá-lo, mas com a consciência de que é necessário ir além dele, que ter recordações é diferente de viver delas e que quanto mais rápido o processo de elaboração e digestão do luto e das frustrações, mais tempo nos sobra para novas experiências e felicidade na curta vida que temos. Algum tipo de prazer masoquista nos faz, com freqüência, arrancar cascões de forma reiterada e impedir a cicatrização de feridas, caímos num ciclo vicioso e destrutivo: é importante compreender que se a dor não vai embora, ao invés de cultuá-la devemos seguir apesar dela.
Como escreveu Jorge Luís Borges “A derrota me satisfaz porque aconteceu, porque está inumeravelmente unida a todos os fatos que são, que foram, que serão, porque censurar ou deplorar um só fato real é blasfemar contra o universo”. Dançar na dor/escuridão, expressão nietzschiniana, é uma aprovação jubilatória da existência, daí o conceito de amor fati: é aceitar os fatos da existência (amá-los) sem cair no conformismo ou passividade, fazer as pazes com o seu destino e fazê-lo da melhor forma possível, já que estamos condenados ao eterno retorno.
É preciso viver de forma intensa e altiva o que a vida nos trouxer ou os labirintos que desenhamos sem nos perder nas lamentações, ressentimentos, piedade de si ou saudosismo, se recusar a viver nos paraísos perdidos ou das miragens de outrora, sem perder o sono e o equilíbrio pelos fantasmas do pretérito. Verdade que a capacidade de lembrar nos faz humanos, mas desconfio que não entendemos ainda a importância de esquecer, não se trata de desprezar acontecimentos que forjaram nossa própria identidade, mas entender que as coisas passam com uma velocidade vertiginosa, que é preciso saber partir, deixar partir e entender que muitas das escolhas que fazemos na vida depende de nossa capacidade de recomeçar e de deixar o passado em seu devido lugar.
É uma recusa a reviver o mito de Sísifo, condenado refazer sua trajetória com o grande peso que carrega. Se nos livrarmos das relíquias, tudo que sobra é o vazio que tem um sabor maravilhoso de vida e liberdade, fervilha de infinitas possibilidades. Sem as múmias, há apenas papel em branco e o convite a preenchê-lo; sem as certezas ou garantias, só resta o porvir, ou melhor, o agora.
É claro que esta é só mais uma das perspectivas possíveis diante da vida, que cada um é único, tem seu próprio tempo e que não existe fórmula coletiva de felicidade, no entanto, por enquanto, este é o ângulo que me parece mais acertado.
Sem tramas, dramas ou ressentimentos do passado, aceito apenas o risco de estar viva e escolho a simplicidade do presente. Se a vida é uma jornada, eu gosto de viajar leve, sem trapos nem álbuns, com algumas cicatrizes e tatuagens, mas sem cultivar feridas. Sigo apagando rostos, rasgando bilhetes, dispensando arrependimentos e lamentações, não levo muita bagagem; na estrada me basta uma bolsa de mão (exatamente do tamanho da que me foi roubada).
Eu ri muito outro dia por causa dos comentários entusiasmados sobre o assobio no blog de um amigo. Isso porque, segundo o autor, este não era o tema do texto.
É interessante perceber que a realidade não é dada e sim construída pelo sujeito na medida em que o mesmo a percebe e com ela interage. O elemento subjetivo é imprescindível na visão de mundo; só não há uma esquizofrenia coletiva porque existe a linguagem que possibilita que as representações particulares sejam acessíveis e as visões de mundo intercambiáveis.
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Para complicar, convém lembrar que são inusitados e sinuosos os caminhos da língua. Ressalto que, ao menos quando a escrevi, a frase anterior não tinha nenhuma conotação erótica.
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Deparei-me com um termo novo: Estética da Recepção, que trata da importância do receptor da mensagem enquanto parte construtiva da mesma, na medida em que traz consigo elementos subjetivos e exteriores à obra que são agregados na sua interpretação. Acreditava que os casos de falha na comunicação seriam causados apenas por erros na construção frasal ou na compreensão (leia-se compreensão, ok ?). Ledo engano, nenhuma obra é imanente, nenhum texto basta em sí: jamais é monólogo, diálogo se impõe.
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Há, portanto, uma relação peculiar de cada leitor com o texto, na medida em que o significado não é meramente extraído, mas buscado de forma complexa num processo de recriação em que o jogo subjetivo de recepção pode configurar a própria desconstrução do texto (a la Jacques Derrida).
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Essa percepção individual e exclusiva do texto fica muito evidente quando assistimos à adaptação de um livro a filme, sempre paira com a impressão de que “não era bem assim”. Isso porque ficamos reféns de uma interpretação que nos é imposta, tal qual uma visão conclusiva, ortodoxa, que, obviamente diverge da nossa, portanto é uma verdade duvidosa.
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Por outro lado, já que nossa bagagem pessoal interfere na percepção e que não somos sujeitos coagulados, é impossível ler o mesmo livro (da mesma forma) mais de uma vez.
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Dessa forma, fica ainda mais evidente a importância da Hermenêutica e o equívoco de Hans Kelsen ao enunciar que na clareza do texto, cessa a interpretação. Existe uma esfera de lingüisticidade do conhecimento e a interferência da perspectiva individual, daí a existência de múltiplas interpretações e a impossibilidade de se extrair uma verdade última dogmática (em se tratando de textos jurídicos, a chamada vontade do legislador).
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Tanto assim, que um ministro do Supremo (num lampejo de lucidez) afirmou: “As decisões e interpretações do STF não são definitivas porque são corretas, são corretas por serem definitivas”. Nem este privilégio, vocês me dão, me acalenta poder fazer o mesmo com vossos comentários.
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E eu que achava que aqui, no meu blog, o mundo girava ao meu redor e o meu ponto de vista era a referência (egocentrismo ingênuo esse meu). Nem vou me dar ao trabalho de escrever uma frase bem construída para concluir o texto e cada que entenda como bem desejar, afinal, parafraseando Jorge Luís Borges, eu sou apenas a autora…
Li, recentemente, O Barco Ébrio de Arthur Rimbaud. Já havia lido dele Uma temporada no Inferno, livro que repousa na cabeceira de minha cama, assim como outros com os quais tenho uma relação tátil; Notas do Subterrâneo, O Aleph, A Construção, Assim falava Zaratustra e um livreto de Fernando Pessoa (tem meus poemas favorito, Tabacaria e Lisboa revisitada).
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Não há como descolar o fulgor poético da biografia do poeta: sua precocidade (escreveu Le bateu ivre aos 17 anos e aos 21 parou de escrever), sua autenticidade, sua vida errante, rebelde, intensa e boemia. Talvez por isso, Paul Verlaine, seu companheiro de Literatura e de cama, afirmou que “Rimbaud teve uma vida inimitável”.
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Seus textos estão repletos de imagens paradoxais [por vezes sombrias], desespero, vigor e fúria. São, simplesmente, viscerais e indóceis.
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Suas obras me provocam vertigem. Li em algum lugar que “só é capaz de amar quem tem coragem de perder o prumo”. Creio que, em verdade, só é possível experimentar a intensidade ao se permitir o risco, o abismo, o descontrole, por isso o barco de Rimbaud é errante, bêbado (belíssima metáfora).
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Só lamento não saber francês e perder as rimas, o que é inexorável numa tradução.
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Tive dificuldade em selecionar minhas passagens favoritas, fragmentos que exprimissem a essência da poética rimbaudiana. Foi uma tentativa interessante (mas mera tentativa) sempre o é.
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Uma Temporada no Inferno:
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[Mau sangue]
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Detesto todos os ofícios. Chefes e operários, todos campônios, ignóbeis. A mão na pena vale a mão no arado. – Que século de mãos! Não darei nunca a minha. Depois, ser doméstico leva longe demais. A honestidade de mendigar me aflige. Os criminosos repugnam como os castrados: eu estou intacto, e para mim é o mesmo.
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A gente não parte, retoma o caminho. E carregando meu vício, o vício lançou raízes de dor ao meu lado desde a idade da razão, e sobe ao céu, me bate, me derruba, me arrasta.
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A última inocência e a última timidez. Está dito. Não levar ao mundo meus dissabores e minhas traições.
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O Barco ébrio
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Quase ilha, a sacudir de meus bordos as querelas
E pássaros ladradores com olhos louros.
E eu vogava, quando através das cordagens fracas
Os afogados a dormir desciam aos recuos.
(…)
Mas, é verdade, muito chorei! Auroras são cruciantes,
Numa destas manhãs de sábado, eu estava atrapalhando Pablo Jones e outros amigos que estudavam para um concurso, quando começamos a falar da nossa opção por cursar Direito. Alguém disse “Acho que foi para agarrar mulher e beber cachaça”, tive então que ser sincera: “Entrei para um encontrar um marido, mas as coisas não aconteceram e eu tive que estudar, as provas têm animus ferrandi”.
Foi nesse contexto que nos demos conta de que estamos concluindo o curso e do quanto nossas vidas mudarão em breve. A formatura traz o peso de amadurecer, é o fim de um ciclo e de nossa identidade de estudantes, é uma região de limbo, de transição, de fronteira, de onde vislumbramos o porvir: o início de uma nova fase metafórica e literal em que o papel a ser desempenhado é completamente novo.
Ocorre a intensificação da responsabilidade e das expectativas (nossas e alheias): a partir de agora é necessário construir um nome, uma carreira, patrimônio, a atingir estabilidade, ser bem-sucedido, seguir a fórmula coletiva de felicidade.
No afã de construir o futuro, pode-se aniquilar o agora e na busca pelo status e pelo dinheiro, podemos confundir os meios com os fins. Neste contexto de incertezas, alguns se questionam o que realmente querem e o que foi introjetado, ensinado que deveriam querer. Tentam raspar camadas de verniz numa tentativa de autoconhecimento, a aplicação da idéia nietzscheniana de “tornar-se o que é”.
Tornar-se adulto é um processo irreversível, mas não queremos sê-lo, não agora, não essas entidades enrijecidas, pesadas, taciturnas, incapazes de recomeços. Envelhecer é ainda mais cruel numa sociedade que cultua a juventude.
Alguns sobrevivem na simulação, querem ser jovens para sempre: rostinhos neotênicos, botox, bermudas e musculação. Procuram incansavelmente a fonte da juventude, querem brilho e vitalidade, congelar o tempo, uma dose imediata de aventura e irresponsabilidade.
O caminho é inexorável, mas pedimos (ou exigimos) que o relógio biológico congele, que o tempo pare, queremos um refúgio na Terra do Nunca. Somos sinceros Peter Pans temendo o crocodilo Tic Tac – aquele que engoliu um relógio…
A despeito de nossos desejos, a vida implica em uma origem e um fim, um sentido, uma continuidade. No entanto, nossa vontade é ultrapassar nosso próprio fim para onde não há qualquer determinação, quebrar a linha e nos projetar do outro lado do espelho. Lá onde tudo perambula indiferentemente de causalidade, sem nostalgia nem uma fé desesperada no futuro, afinal as promessas deste seguem as mesmas trilhas das lembranças do passado: desaparecem, são meros vestígios do real (que se reduz ao agora).
Já tive experiências deliciosas com o silêncio, o contato comigo, meus pensamentos e dúvidas, com a solidão (por vezes) necessária, absoluta e revigorante. Já passei também por situações medonhas com ele. Quem nunca provou uma situação na qual um silêncio constrangedor se instala e conduz a uma tentativa desesperada de preencher o vazio da compainha com palavras frívolas?
Li em algum lugar que um bom teste para descobrir o grau de intimidade que temos com alguém é deixar que o silêncio se instale, se surgir um desconforto, digamos que não há um vínculo muito estreito. Se a compainha para se perfazer não puder prescindir das palavras, ela é efetiva? Amigos viscerais, cúmplices e amantes sabem o quanto o silêncio entre eles pode ser maravilhoso.
O silêncio pode ter vários significados e efeitos: ele acalenta, afaga, convida, repele, omite, aniquila, exprime compreensão ou indiferença. Costumo relegar algumas pessoas e assuntos ao silêncio, ao menos enquanto não consigo lançá-los à indiferença. A Psicanálise já ensinou que as pessoas podem ser muito mais o que calam do que o que falam, existem segredos que nem sabemos que calamos.
Retornando à experiência terrível de quebrar com as palavras o silêncio, creio que tentamos destroçá-lo para esfacelar o que ele significa, a solidão; daí, usamos o outro ou o diálogo como muletas. Ocorre que a sensação de solidão guarda pouca relação com a presença de outrem, aliás, “solidão acompanhada” é a mais triste.
Um amigo me disse que não há nada de errado em dizer o óbvio, por isso eu gostaria de dividir essa grande descoberta: o silêncio desconcerta e nos remete à solidão existencial, independente do fato de haver alguém por perto. Talvez seja por isso que eu gosto de ouvir música muito alto, para não ouvir os sussuros do silêncio.
O caos se instala em Salvador quando chove. Há algumas semanas fiquei o quíntuplo do tempo médio para fazer o percurso da casa para a faculdade, mas foi agradável porque encontrei um colega e tivemos um diálogo interessante.
Conheço o moço há um bom tempo e sempre soube que temos interesse acadêmico pelos mesmos objetos (violência e criminalidade), mas eu nunca havia conseguido prestar atenção no que ele fala, aliás, esse é um problema que eu tenho em relação a homens muito bonitos: diante de tantos atributos, eu não consigo me concentrar no que falam. É verdade que o guri em questão é meio haribô, mas no dia em que ele descobrir o caminho do shopping…
O gajo trabalha no Complexo Penitenciário e tem sido um expectador privilegiado da rotina carcerária, desde a preferência por Mizunos até a existência do Comando, as drogas, o seguro, os fardas-azuis, a solidariedade, o embrutecimento, a banalização da vida, da violência e da morte, o rompimento com a moral (Übermesch?), a solidariedade, os mecanismo de poder e de sobrevivência.
Chama sua atenção (assim como a minha) as regras informais que moldam o funcionamento das instituições penais e o fato de que provavelmente as mesmas só funcionam pela existência delas. É óbvio que a Lei de Execuções Penais não esgota as possibilidades da experiência punitiva, a realidade não se subsume perfeitamente à norma positiva, mas o que acontece é o oposto do dever ser estabelecido pela dogmática do Direito.
A prisão mostra-se incapaz de corrigir, socializar e prevenir. O infrator é menos importante que as organizações prisionais que coordenam o tráfico, empregos internos, benefícios, relações com parentes, consolidam um fluxo dilatado de conexões com a sociedade livre, a segurança, o poder. Não se pretende devolver o sujeito ressocializado, se negociam sentenças, saída de internos, entrada de objetos.
Há ainda a truculência, a violência legitimada pelo Estado e o fato de grande parcela da sociedade perceber os Direitos Humanos como privilégio de bandidos e os internos/devedores transformam-se de sujeitos em objetos da punição, devendo lhes ser inflingida dor e humilhação a título de jus puniendi para que as contas sejam equilibradas.
O meu amigo também compartilha comigo de uma percepção crítica acerca da lógica e da seletividade sócio-política do sistema prisional e da ineficiência das prisões. Ele é uma recusa, apesar de conhecer a dinâmica institucional, a lógica da proprina e da permissividade, se nega a entrar no jogo. Nada de receber um “agrado” para permitir o fluxo de celulares, de recuar diante de ameaças ou fazer vista grossa para as xuxas, nada de ser conivente com colega que não quer levar o detento para a assistência médica ou que acha que o cacetete melhora a síndrome de abstinência de crack que alguns internos apresentam.
Ele é menino muito convicto, com um brilho intenso nos olhos, cheio de ideologia, princípios, valores e é portador de uma ingenuidade deliciosa, crê que sua ação no micro-espaço cotidiano é o ponto de partida para uma revolução radical no sistema.
O garoto não entende que a corrupção é sistêmica e que ser dissidente o expõe a um risco iminente: a represália que o aguarda é inexorável, seja de colegas prejudicados pela sua retidão de caráter, seja de internos sedentos de regalias contra legem. Não é possível sair ileso desta experiência, há uma tensão muito grande no presídio e os princípios orientadores são a corrupção e a truculência.
É lamentável perceber que a desonestidade está tão arraigada que condutas louváveis como a do guri não causam esperança e sim preocupação. Ao me despedir dele me flagrei (em contradição com meu ceticismo) pedindo que forças sobrenaturais o protegessem e que ele arrumasse um novo emprego.
Escrevi este texto para pedir a vocês que incluam o guapo em vossas orações, é que, como sou atéia, Deus jamais me atenderia.
Há dias não escrevo uma linha e gostaria de me explicar (e encher lingüiça) antes que as pessoas percam interesse pelo blog. Tive uma contusão na mão direita e por prescrição médica, devo evitar escrever ou digitar por um tempo.
Uma amiga fez um comentário a um texto e disse que jamais utilizaria este espaço para se lamentar. Azar o dela! Eu o farei. As situações mais patéticas e absurdas acontecem comigo corriqueiramente: é a blusa tomara-que-caia caindo dentro do ônibus; é o esbarrão num poste durante o flerte com o carinha que passa pelo outro lado da rua; acordar às 5:30 hs e chegar tarde na aula; perder a promoção da M. Officer; é ainda não ter caçado um marido rico aos 23 anos; Não é à toa que na minha família quando alguém tem um dia difícil, usamos a expressão “ dia de Marcela”.
Para piorar, a sortuda aqui tá sentindo uma dor desgraçada e tem alergia à maioria dos analgésicos, os que restam causam sonolência, sobrecarregam os rins e só podem ser usados a curtíssimos prazos. Depois de uma análise de custos/benefícios, conclui-se que mais interessante é agüentar a dor sem paliativos (hehehe, eu tinha que dar um jeito de usar a Teoria da Escolha Racional).
É uma terrível ironia o fato de eu ter como opção mais racional suportar a dor; isso porque o pensamento humano tende a evitá-la e a maximizar as possibilidades de prazer; sem cair numa simplificação hedonista, tendemos a evitar o sofrimento e buscar algo parecido com a felicidade. Para mim, nada de evitar, fugir ou negar, só me resta suportar a realidade da dor (gostaria de ter essa coragem em outros aspectos da vida).
Ao menos, dor é uma experiência absoluta, dispensa qualquer máscara, maquiagem ou pose, nos obriga a nos defrontarmos conosco e com ela, se faz espelho. Ela se impõe.
O sofrimento (mais que a dor física) faz parte da existência e quem jamais o experimenta padece de algum mal (no mínimo, indiferença diante da vida). Sofrer significa estar em contato com a realidade, que sentimos com o corpo e alma a tristeza de algumas perdas. É verdade que algumas vezes este estado de espírito não guarda relação com situações concretas (está nos olhos de quem o sente), mas o mundo também nos cobra uma certa alegria histérica.
Considero muita acertada a afirmação de Schopenhauer de que a vida é um turbilhão de desejos que nos condena ao sofrimento, mas sempre que passo por momentos dolorosos (físicos ou não) penso na máxima de Nietzsche de que o que não mata fortalece. É acalentador conferir um caráter teleológico ao sofrimento.
Em suma, depois de meia dúzia de pensamentos sem analgésicos e concluindo meu mea-culpa pela inércia do blog, sei que a maldita dor me lembra que estou viva e que (o martelo nietzscheano pode estar testando minhas certezas) concordo com a belíssima música de Caetano Veloso:
“Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
A lágrima clara sobre apele escura
À noite a chuva que cai lá fora”
PS: O título do texto é um plágio descarado da frase de um amigo (que eu adoro repetir).
Neste espaço, procuro abordar fatos e sutilezas da (ir)realidade cotidiana, por vezes tratando das agruras, do peso de fatos, da necessidade de reflexão ruminante em tempos de incerteza e massificação, outras deslizando pela leveza e luminosidade da vida e do belo. É com esta proposta genérica e pretensiosa que me permito passear pela Política, Sociologia, Filosofia, Direito e Artes sem estar presa a nenhum grilhão. Não assumo nenhum compromisso com a lógica, com o método (viva a Feyerabend), ou com a razão, o único pacto que aqui estabeleço é com a minha vontade. Em verdade espero tratar do alegórico, do poético e do caótico. Bom apetite!