Dia desses, um cliente me disse no trabalho que eu não fui bem adestrada, ao que prontamente respondi: “Você também não. Como eu sou paga para negociar com gente, o que pressupõe capacidade de compreensão e diálogo e como eu nunca tive vocação para veterinária, peço que você se retire.” Farpas à parte, é incrível o poder das palavras.
As palavras são mágicas, o sentido do mundo advém da linguagem instauradora do homem, criadora da consciência reflexiva do mundo. Pela palavra o mundo se faz, é um conceito humano, a ordenação intelectiva e orientadora da totalidade num esquema significativo. A totalidade dos signos constrange o pensamento e a linguagem é pulsante, dinâmica, passível de ressignificação que se dá por constrangimento a novas associações. Desta forma, por uma analogia com a psicanálise, o sujeito pode reviver situações originárias com outra interpretação, é a ab-reação; atribuição de novo significado a determinada experiência. Pronto, daí a mágica está feita, feitiço é quando alguém assimila uma palavra que o transforma.
Não subestimemos as palavras, não sejamos ingênuos diante delas, em Além do Bem e do Mal, Nietszche já ensinava: “Cada filosofia esconde também uma filosofia, cada opinião é também um esconderijo, cada palavra é também uma máscara”.
É por esta lógica que funcionam no mundo do trabalho conceitos como equilíbrio emocional e excelência profissional, jogando para o trabalhador a responsabilidade por uma passividade bovina diante destas situações insidiosas que afrontam sua dignidade. Desloca-se a atenção das situações objetivas, para a capacidade da vítima de suportá-las sem explodir (cada um que se imploda!).
Anormais não são aqueles que se anulam, e sim os que não se adequam. Essa ressignificação fere a coerência absoluta do sujeito, tem conseqüências psicológicas profundas, o gestual reprimido torna-se projeção, recalque, transcendência, daí a somatização, a LER, a depressão, a ansiedade.
Iuri Ramos descortina de forma brilhante a função lógica e ideológica dos Programas de Qualidade Total num contexto de reestruturação produtiva. Quero mostrar que, antes dos programas, até mesmo os conceitos servem para criar conformidade a aumentar a produtividade. As pessoas não recebem metas e sim desafios estimulantes.
Também por estes mecanismos, são introjetadas docilidade e disciplina, ocorre o condicionamento. O poder difuso reprime, recalca, cria indivíduos e realidades que, por serem produtos, funcionam como as correias foucaultianas de transmissão de poder.
Nesta relação poder-corpo, o trabalhador torna-se útil, obediente, irracional, uma forma vazia e aberta para padrões funcionais, projeções de estruturas mentais aperfeiçoadas ligadas à eficiência. O indivíduo vira um autômato.
Só agora entendi que o cliente não me ofendeu, elogiou e as palavras dele não me enfeitiçaram. Obrigada, concordo contigo, ilustre e prepotente desconhecido.

