Abril 17, 2008

foto: Roque Pinho
Escrever para mim é uma oportunidade de reflexão, de digerir fatos, de entender ou espantar velhos fantasmas, ao virar sujeito e objeto de meu voyerismo (você estar lendo meu texto é acidental). Desta forma, peço licença para ter aqui uma conversa que me devo há anos e será assim mesmo: eu sozinha no conforto do meu quarto, na segurança de meu espaço, na incerteza de que a mensagem chegará ao destinatário e deixando o leitor na dúvida se abordo um fato real, ficção ou ambas as coisas.
A., sei que teu aniversário está chegando, aquela história de que eu sempre esqueço a data e não sei ao certo não é verdadeira (como você pôde acreditar? Já nos conhecemos a quase uma década). Desculpe-me pelos anos de mentira, mas sempre achei tão bonitinho você me ligar “por acaso” já pertinho da hora da virada, sempre imaginei que fosse para me dar a oportunidade até o último momento de te ligar.
Lembrei que há alguns anos prometi que escreveria um texto para ti, creio que não bem assim que você o queria, mas gostaria de te convidar para dar uma olhadinha na nossa história (exatamente no fim) através da minha perspectiva.
Por alguns anos, não pronunciei teu nome, simplesmente não conseguia, me afastei de amigos em comum, mudei o número do telefone, joguei fora tudo o que me lembrava você (e eram tantas coisas), inclusive a blusa branca decotadíssima que você detestava (ato quase que in memoriam). Guardei o lencinho com as gotas do teu sangue, disso eu não podia me desfazer, eu ainda tenho medo de agulha e horror a sangue, então considero esta a minha preferida dentre todas as provas de amor absurdas que nos pedíamos, aliás não, você ter se mudado para Salvador por minha causa é insuperável!
Lembro com carinho do quanto éramos companheiros, amigos mesmo, do quanto nos bastávamos. Éramos absolutamente dependentes e eu adorava perceber que eu tinha de verdade tudo o que eu precisava (você!). Queríamos tanto um ao outro que nos engaiolamos, nos prendemos, viramos propriedade um do outro, com direito a todos os elementos da Teoria Savignyana da Posse: o contato material, domínio e o animus possidendi, o agir como proprietário. Acontece que pássaros engaiolados são tão tristes. Na alma não há gaiolas.
Você era tão ciumento, eu tão intransigente. Tínhamos concepções de mundo radicalmente antagônicas, mas o que eram posições político-ideológicas diante do modo como você andava, sorria. Ficamos enfeitiçados, virei escrava de teus olhos, de teu olhar, precisava deles só para mim. Ainda hoje não sei ao certo se o que me prendia eram teus olhos ou a minha imagem que eu via refletida neles.
Queríamos que durasse para sempre, e quem é que já não acreditou que duraria para sempre? Lutamos contra o fato mais inexorável da existência: a efemeridade. Não importa com que cuidado as pessoas façam seus planos ou a intensidade de seus desejos, as coisas acabam e negar essa premissa é construir a vida sobre bases não sólidas. Alguém já disse que viver é a arte de ir se despedindo…
O amor é insuportavelmente efêmero, é exatamente isso que os apaixonados não suportam, só contenta a paixão o que é eterno. Por isso as histórias de amor são tristes, elas sempre trazem a certeza do sofrimento, do fim.
Quero que você saiba que, apesar de todo o sofrimento que nos causamos, valeu a pena e que se eu pudesse reescrever a nossa história, não alteraria uma vírgula. A intensidade do que experimentamos dispensa qualquer escolha segura e racional de fugir do risco. Levei anos para entender isso.
Por muito tempo eu me perguntei qual seria o sentido do amor, uma vez que, ab initio, está fadado ao fracasso, nenhuma história de amor tem final feliz. Com o tempo percebi que existe sim a possibilidade de seu triunfo, só que ele não está na chegada, não é o final do caminho e sim a trajetória. Por isso, te proíbo de dizer que nós não demos certo, que caminho lindo que foi o nosso: cinco anos repletos de encontros, desencontros, aventuras e cumplicidade.
Este ano, como presente de aniversário, te deixo um breve recorte da nossa história (que ao havia relegado ao silêncio, proibido a menção) e o mais sincero desejo que você abandone qualquer rancor, mágoa ou culpa, que a vida te seja leve e que você saiba colori-la.
Sei que você questionará a validade de tudo que eu afirmei ao perguntar se outras pessoas não surgiram para diminuir tua importância na minha vida. Eis a resposta que reservo a ti: é claro que surgiram, em três anos muita coisa aconteceu, me encantei algumas vezes, me apaixonei (deve ter acontecido contigo também) e, a despeito disso, o que vivemos sempre fará parte de minha biografia, sempre o teremos em comum, é o nosso legado.
Taí, outras experiências afetivas dariam um bom tema para um texto, mas deixo para um outro momento de arroubo sentimentalóide de minha parte. Por agora me limito a repetir que “azar no amor, sorte no jogo” (gostaria de poder substituir a palavra jogo por concurso)… Será que alguém aí topa uma partida de poker?
Abril 21, 2008 at 2:27 pm
Clap, clap, clap.
Lindíssimo.
O amor é brega, mas é de fuder.
Abril 24, 2008 at 12:19 am
Lorenzo: O amor é coisa de donzelas do séc. XVIII? rsrrs
Abril 24, 2008 at 9:46 pm
Nanã, minha menina, a mensagem chegou. Fiquei feliz porque você não a colocou numa garrafinha e jogou ao mar.
Obrigado pelo presente, sempre soube que não era indiferença que teu silêncio calava. Continuarei te ligando no meu aniversário.
Faltou você dizer se as pessoas chegam na linha de chegada ao mesmo tempo. Eu tenho a impressão de que não.
O texto ficou leve e bonito, você continua escrevendo bem, mas detestei o final. Em resumo, diante de você, eu sou eterna contemplação, te adoro!
Tive uma idéia, posso processar o provedor pedindo direitos autorais (eu inspirei teu texto, sou teu “muso inspirador”), te contrato como advogada, ficamos ricos e vamos viver na Espanha. Que tal?
* Muita coincidência eu ver teu blog agora, hoje de manhã ouvi uma música que você gosta, aquela que diz “Desde o tempo em que você andava com quem não conhece teus segredos, que, sem pensar, brinco de repetir…”
Abril 24, 2008 at 10:23 pm
Marcelinha, PARABÉNS pelo texto, achei bonito, um texto belíssimo sobre o amor e sua finitude. Lembro que uma vez li no teu orkut “tenho muitas cicatrizes, algumas no corpo outras na alma, me orgulho de todas”, este texto prova o que você afirmou com poesia e serenidade.
Reparei que as aulas de Medicina Legal te fizeram muito bem porque você demorou um bom tempo para realizar esta autópsia, mas ficou muito bem feita…
Abril 25, 2008 at 1:00 am
Lorenzo: O amor é disso, embora não seja só isso….às vezes as pessoas se f***. srsrs (não resisti à brincadeirinha).
A.: Não creio! Menino, vc leu (q vergonha). Adorei a idéia do processo, desde que meus honorários correspondam a 20% e que vc não tente barganhar na hora do pagamento (o combinado não é muito nem pouco, justo nem injusto, é o combinado). Qto à Espanha, acho q não daria certo pq eu iria querer estudar Criminologia em Madrí, vc gosta das linhas de Barcelona, iríamos brigar e cada um tomaria seu rumo. No fim das contas, a culpa seria de Galdí. Isso claro, se antes não aparecesse alguma vadia da bunda grande..rrsrs
Ah, ainda gosto da música, mas ela me lembra Simmel: ” A posse gera o amor pela posse”. Te cuida, “muso”!
Gabriela: Valeu, q bom q vc gostou. Pois é, a tanatologia é fabulosa…rrsr.
Em relação à demora p tratar do tema, vc sabe q existe um prazo entre o processo morte e a realização da necrópsia (p segurança do legista, é claro).
Abril 25, 2008 at 4:30 am
cartas de amooor são ridiculas, textos piores ainda, esse nao me agradou em nada, ja perto do final parei de ler, muito mais muito chato esse.