Numa dessas tardes de apatia e consumismo, fui ao shopping com algumas amigas e presenciei uma situação que me fez desviar a atenção dos do papo entusiasmado sobre sapatos e bolsas: um menino negro com roupas maltrapilhas foi abordado truculentamente por um policial, revistado (sem que nada tenha sido encontrado) e “convidado a se retirar”. O contraste entre a aparência do menino e a paisagem era muito nítido: a bermuda velha e encardida do menino destoava da harmonia asséptica das vitrines. O menino estava sujo e não estava no local adequado, ainda mais em tempos em que a dignidade humana e a cidadania são confundidas com a capacidade de consumo.
Um dos significados da palavra sujeira é: aquilo que não está em seu devido lugar. O atributo de sujo não é intrínseco a um objeto e sim um conceito relacional vinculado a uma configuração idealizada. Ocorre que toda ordem gera sua sujeira, seus estranhos e indesejáveis (o refugo humano) e que há coisas e pessoas para as quais o “lugar certo” não foi reservado: o modelo de pureza preconizado por alguns não comporta a convivência com o refugo, é necessário, no mínimo, afastá-lo do campo de visão, lança-los em periferias, asilos, manicômios e prisões.
Neste contexto de criação de imagem desses outros, surge o Direito Penal do Inimigo, que visa não apenas punir delinqüentes, mas afastar – através da vingança – estes sujeitos responsáveis por experiências negativas e pela sensação de repulsa, aparece também a face punitiva e repressora do Estado (via mecanismos de ações legítimos e ilegítimos) servindo para efetivara exclusão. Há uma face oculta no discurso autorizado.
Na passagem para a Pós-Modernidade, a busca pela pureza deslocou-se da ação punitiva contra classes perigosas e passou a expressar-se diariamente com ações contra moradores de bairros populares, vagabundos e maltrapilhos, os suspeitos. Há, portanto, grupos que carregam os estigmas da suspeita, da culpa e da intimidação permanentes: desfavorecidos são vistos como potencialmente violentos e perigosos, deixam de ser caso de política e viram caso de polícia.
Como afirmado anteriormente, nesta dinâmica, o Direito Penal por vezes confere o arcabouço necessário a esta estrutura (ao mesmo tempo em que a reflete num mecanismo de retroalimentação) através de uma perspectiva teórica inquisitória que legitima ações violentas, seja partindo de agentes autorizados estatais, seja de particulares embebecidos pela lógica dominante.
A lógica punitiva aparece muito antes de surgir uma situação-problema, muitas vezes ela cala, esconde e disfarça preconceitos. Encontra-se disseminada no cotidiano fomentando pequenos fascismos (de ranço lombrosiano), ampliando sua faceta intolerante por meio de respostas legais ao crescente clamor por mais punições e aprisionamentos, se omitindo diante das chacinas e execuções.
Esta dinâmica instala-se, segundo a moral, em lares venerados e barracos desrespeitados, alimentando os corredores limpos e engravatados dos Tribunais, a sujeira e os remendos de prisões tão rotas quanto as roupas do menino no shopping.
Abril 17, 2008 at 11:28 pm
E tudo isso acontece numa dita ‘democracia avançada’…
Abril 18, 2008 at 1:13 pm
Excelente texto!!!! Só discordo de uma coisa, aquele lance da “passagem para a pós-modernidade…”… Na verdade, aqueles comportamentos já existiam bem antes e eu não entendi o que muda com a chegada dessa famosa…
Abril 21, 2008 at 2:33 pm
Bala.
E a classe média se pergunta: o que fazer com este lixo humano que não serve pra nada?
No cantinho mais escuro e mais escondido das suas cabeças se esconde o desejo de fazê-los simplesmente desaparecer, para que enfim pudessem viver num mundo seguro, limpo, bonito e viável.
Abril 24, 2008 at 12:16 am
Fabrício: Pois é, mesmo assumindo uma concepção instrumental de Democracia e uma conceito esvaziado de Justiça (como aplicação da lei, independente de seu conteúdo), é impossível não perceber a desigualdade gritante de tratamento, a injustiça, a desconfiança, o desrespeito. Direitos humanos, dignidade e presunção de inocência não são para todos, há uma seleção muito rígida.
Rafael: A Pós-Modernidade se caracteriza TAMBÉM pela aceleração, exacerbação, acentuação de alguns comportametos já existentes, mas há uma mudança radical, segundo Bauman: os desfavorecidos são alvo não apenas da exploração, mais gritante é a exclusão.
Lorenzo: É isso: na impossibilidade de eliminação, joga-se a “sujeira” p baixo do tapete.
Abril 24, 2008 at 12:31 am
ORDEM para o povo! PROGRESSO para a burguesia” – BNegão
Abril 25, 2008 at 4:34 am
é, o blog ja foi pros favoritos
e so saira debaixo de formatação
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Agosto 1, 2008 at 2:41 pm
Cela, tava lendo o texto e pensando q já passei exatamente pela mesma situação q vc… no shopping Itaigara, um segurança agarrou um menino pelo braço e foi se dirigindo à porta da rua. Eu me aproximei e perguntei o que estava acontecendo, o segurança respondeu q o menino estava descalço e não poderia ficar no shopping. Depois de minutos de discussão, eu argumentando sobre o preconceito e discriminação que estavam sendo cometidos e o segurança dizendo que apenas cumpria ordens e que as ordens eram expulsar o menino descalço eu fiz a seguinte pergunta: e se eu tirar o sapato e entrar descalça nesse shopping, vc vai me tirar pelo braço? A resposta: não senhora. Então eu não mais entrei no shopping… é realmente revoltante a nossa realidade.
Adorei o texto! parabéns.
Bjos