Abril 18, 2008

Não uso relógio. Não quero que as pessoas me perguntem as horas (poucas coisas na vida me aborrecem mais do que isso) e observar a passagem do tempo me aflige.
Eu também nunca sei os roteiros dos ônibus, detesto dar informações, basta você dar uma brecha e as pessoas já tentam engatar um papo enfadonho que vai das condições meteorológicas ao trânsito. Sempre tento me sentar na cadeira do ônibus que não tem outra ao lado para diminuir a possibilidade de alguém tentar puxar conversa comigo (maldita seja a educação que meus pais me deram que me obriga a ser simpática e a prestar atenção nas pessoas mesmo em momentos de intensa chateação).
Não entendo essa necessidade quase pedinte de interação: basta eu estar entretida em meus pensamentos, no meu fabuloso mundo particular e aparece alguém para me afastar, me distrair com diálogos vazios, desinteressantes e contatos dispensáveis, me deixando extremamente entediada. Sempre acho que estou perdendo tempo: as pessoas me fazem perdê-lo, assim como a TV, livros ruins, aulas estúpidas, telefone e msn. O que me coloca em situações difíceis porque eu tendo a ser apressada, objetiva e pragmática no trato com as pessoas e elas geralmente entendem como impaciência, frieza e má-educação.
Minha percepção angustiante do tempo, da sucessão pavorosa de instantes, está intimamente vinculada a algumas peculiaridades da Pós-Modernidade. Na sociedade da informação, há a valorização do saber, sua identificação com poder, a superabundância factual contrastando com a capacidade cognitiva e de absorção limitadas, deixando o indivíduo atordoado, ansioso e com uma percepção da passagem do tempo muito singular. Soma-se a tal fenômeno a revolução na velocidade da informação gerada pela informática e outras tecnologias e a conseqüente supressão espaço-temporal.
Em paralelo a estes fenômenos, há o deslocamento do real apontado por Marc Augé acarretando o ego ficcional: há uma “realidade virtual” para a qual o sujeito pode transportar-se e que dispensa contatos efetivos com o contexto no qual está inserido. Daí minhas estratégias para evitar diálogo em ônibus podem ser explicadas e entendidas também pelo conceito de desencaixe e de desatenção civil de Giddens, ainda mais quando resolvo usar o mp4 (bendita invenção).
Depois de valer dos sofrimentos pós-modernos para justificar minha conduta, confesso que minha tática do relógio (da ausência dele) ficou obsoleta depois da popularização dos telefones móveis, as pessoas me perguntam as horas na expectativa de que eu tenha um aparelho celular… Preciso parar por aqui, acabo de perceber quanto tempo me escapou enquanto eu escrevia este texto.
Abril 18, 2008 at 1:59 am
É impressionante como esse tempos pós-modernos aliam de forma paradoxal discrepâncias absurdas e similidades igualmente relevantes entre as mesmas pessoas. Nao digo q esse seja nosso caso, celinha, mas poucas vezes eu me senti tão compreendido por alguém quanto quando li esse seu texto, apesar dele ser tão visceralmente seu. Não é estranho? Belo blog, mais um pra minha lista (que é criteriosamente selecionada! rs)
bjão!
Abril 18, 2008 at 1:07 pm
Hummm!
Vc já se questionou acerca das características negativas da pós-modernidade ou ela traz apenas coisas positivas?
Abril 21, 2008 at 2:28 pm
Chata!
Eu sou o cara que você detesta. Eu tenho uma incrível necessidade de interação.
Abril 22, 2008 at 10:31 pm
No meio das minhas noites sem dormir e da minha falta de tempo deixo minha concordância: o banco solitário do ônibus é “quase” tudo. Seria melhor se as pessoas não ficassem passando pelo corredorzinho…
Só não recorro a ele quando já tem algum intrometido sentado ou quando estou na companhia de alguma pessoa agradável.
Isis…desculpa não comentar direito seus posts, mas já tenho 2 dias dormir e só vou dormir amanhã de tarde…
Beijos!!!!!!
Abril 24, 2008 at 12:30 am
Tonton: É muito bom saber q alguém que me compreende…rrsrs Q bom q vc se identificou. Obrigada pelo elogio, pq o teu já tá na minha lista há um bom tempo. :*
Rafael: Eu entendo que há inúmeras consequência negativas tbm: a ansiedade, as incertezas e a efemeridade das relações afetivas levadas ao extremo (muito amor líquido). Pretendo escrever um texto em breve sobre estas “aflições pós-modernas”.
Lorenzo: Eu ia responder a vc: Pois trate de respeitar quem usa mp4!. daí perceber q vc só tá me aperreando….rrsrs
Gutch: É lamentável: o corredorzinho é inevitável!
Abril 24, 2008 at 9:15 pm
Celinha,
eu não quis dizer conseqüências negativas sobre a subjetividade e/ou o indivíduo, mas sobre a estrutura social, a coletividade…
De qualquer forma, espero essa postagem. rs
Abril 25, 2008 at 4:18 am
rapaaazzz,
tou surpreso, extramente, nao sabia que a senhora [ou posmodernamente senhorita?] escrevia tão bem, puta que pariu, com todo direito dos termos, mas tou de boca aberta, e com esse texto acho q conheci mais do que nunca o que é marcela isis, afff, é porai mesmo, e sim eu me identifico com o texto, e quando quiser me defender em argumentos sobre algo, vou te chamar pra me advogar, podeixar.kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk