O julgamento

Estava eu visitando um blog do qual gosto muito (http://fabriciokc.wordpress.com/) e me deparei com um post sobre o caso Isabella, fui fazer um comentário e acabei escrevendo um texto. Todo mundo fala sobre o assunto e eu tava mesmo com uma vontade danada de dar uns pitacos, abaixo a (quase) transcrição de meu referido comentário.

Há semanas não se fala em outro assunto, o que é resultado da mistura de uma morte trágica, uma menininha linda, da necessidade de um escândalo semanal  e de um promotor que gosta de holofotes. Às vezes me pergunto quantas vezes a garotinha foi atirada pela janela.

É verdade que a morte provocada de uma criança comove, afronta valores morais compartidos, causa revolta, repulsa e que o jornalismo tem a função de informar. A questão é que o jornalismo está necessariamente vinculado à estética da realidade, da isenção, apresentação imparcial de fatos, delas irradia sua credibilidade. É isso que se vende, mas não é o que nós, expectadores e leitores, recebemos. É bem verdade que a neutralidade absoluta é um objetivo inatingível, todo recorte seleciona, toda fotografia depende da perspectiva assumida pelo fotógrafo, mas ainda assim é um fim a ser buscado, um princípio orientador.

Na prática, há sempre a passagem repetitiva de informações desencontradas e versões enviesadas, prevalecendo sempre a versão da promotoria nos casos jurídicos. Esquecem (ou omitem) que o inquérito é inquisitório por excelência, que os indiciados não têm direito de defesa nesta fase e que é no julgamento que a legítima defesa será garantida , lá é que a autoria e a culpa serão apuradas.

Assim mesmo, a mídia devassa, distorce e julga. Com a extrema repetição imagética, fomenta a comoção popular e manufatura a opinião pública (já que a experiência comunicativa midiática é unilateral). Aborda incansavelmente o mesmo tema porque este vende jornais, revistas e dá audiência e assim o é exatamente porque o assunto é exaustivamente apresentado, num ciclo de retro-alimentação.

A mídia faz o espetáculo e a totalidade da vida nele se converte, a linguagem vira mercadoria. Na expropriação da linguagem comunicativa, a vida prática é alienada e reificada, o mundo midiático (com seu apelo imagético) apaga as imagens cotidianas

As conseqüências são desastrosas: a mercantilização da informação, o descompromisso do jornalismo com a realidade, com a verdade, a pressão no desenrolar do inquérito e do processo acarretando erros primários e nulidades processuais, a interferência no julgamento e no livre convencimento, ainda mais nos crimes de competência do júri. Sempre nos são apresentados vilões (precisamos mais deles do que de heróis) Suzanas, Brenos e Nardornis porque estas histórias maniqueístas e açucaradas rendem. Não são seres humanos com paixões e densidade psicológica que matam, são monstros e isto nos dá uma sensação reconfortante: primeiro porque a desgraça alheia entretém, depois porque nos causa uma sensação deliciosa de superioridade. Todos queremos ser carrascos. Será que o sangue alheio purga nossos pecados?

Fiquei horrorizada ao ver na TV que dezenas de pessoas ficam em vigília em frente a delegacias e ao prédio dos acusados, lembrei da idéia de espetáculo de Guy Debord e Baudrillard: todos estavam visceralmente comovidos e engajados, ao mesmo tempo, expectadores e alheios à própria vida, numa postura de passividade e contemplação, indiferentes à própria existência e a dramas mais próximos e concretos. Quantas crianças são mortas todos os dias? Basta fazer uma vista ao Instituto Médico Legal para ver vários garotos imberbes mortos a tiros e meninas impúberes mortas a facadas.

O sensacionalismo do caso remonta a discussão feita por Marilena Chauí sobre Mídia e Democracia (eu acrescentaria Justiça). Mídia, imagem, simulacro e realidade.