Abril 28, 2008
Dia desses, um cliente me disse no trabalho que eu não fui bem adestrada, ao que prontamente respondi: “Você também não. Como eu sou paga para negociar com gente, o que pressupõe capacidade de compreensão e diálogo, o que não é o teu caso e, como eu nunca tive vocação para veterinária, peço que você se retire.” Farpas à parte, é incrível o poder das palavras.
As palavras são mágicas, o sentido do mundo advém da linguagem instauradora do homem, criadora da consciência reflexiva do mundo. Pela palavra o mundo se faz, é um conceito humano, a ordenação intelectiva e orientadora da totalidade num esquema significativo. A totalidade dos signos constrange o pensamento e a linguagem é pulsante, dinâmica, passível de ressignificação que se dá por constrangimento a novas associações. Desta forma, por uma analogia com a psicanálise, o sujeito pode reviver situações originárias com outra interpretação, é a ab-reação; atribuição de novo significado a determinada experiência. Pronto, daí a mágica está feita, feitiço é quando alguém assimila uma palavra que o transforma.
Não subestimemos as palavras, não sejamos ingênuos diante delas, em Além do Bem e do Mal, Nietszche já ensinava: “Cada filosofia esconde também uma filosofia, cada opinião é também um esconderijo, cada palavra é também uma máscara”.
É por esta lógica que funcionam no mundo do trabalho conceitos como equilíbrio emocional e excelência profissional, jogando para o trabalhador a responsabilidade por uma passividade bovina diante destas situações insidiosas que afrontam sua dignidade. Desloca-se a atenção das situações objetivas, para a capacidade da vítima de suportá-las sem explodir (cada um que se imploda!).
Anormais não são aqueles que se anulam, e sim os que não se adequam. Essa ressignificação fere a coerência absoluta do sujeito, tem conseqüências psicológicas profundas, o gestual reprimido torna-se projeção, recalque, transcendência, daí a somatização, a LER, a depressão, a ansiedade.
Iuri Ramos descortina de forma brilhante a função lógica e ideológica dos Programas de Qualidade Total num contexto de reestruturação produtiva. Quero mostrar que, antes dos programas, até mesmo os conceitos servem para criar conformidade a aumentar a produtividade. As pessoas não recebem metas e sim desafios estimulantes.
Também por estes mecanismos, são introjetadas docilidade e disciplina, ocorre o condicionamento. O poder difuso reprime, recalca, cria indivíduos e realidades que, por serem produtos, funcionam como as correias foucaultianas de transmissão de poder.
Nesta relação poder-corpo, o trabalhador torna-se útil, obediente, irracional, uma forma vazia e aberta para padrões funcionais, projeções de estruturas mentais aperfeiçoadas ligadas à eficiência. O indivíduo vira um autômato.
Só agora entendi que o cliente não me ofendeu, elogiou e as palavras dele não me enfeitiçaram. Obrigada, concordo contigo, ilustre e prepotente desconhecido.
Abril 28, 2008 at 11:19 am
Marcelinda, muito bom teu blog, excelente este texto. Tá tudo a tua cara, você lança um olhar crítico e coerente sobre situações que nos acostumamos a encarar como banais.
Só podia ser você, a menininha linda de rosa que deixou todos boquiabertos na fatídica Assembléia da greve porque virou uma gigante ao falar com segurança, conhecimento e uma capacidade de persuasão ímpar. Só você para destilar tanta acidez sem jamais aumentar o tom de voz, uma voz que merece ser ouvida.
Linda você, lindo o contraste (docilidade e força), o texto tá excitante e desconcertante, parabéns!
Abril 29, 2008 at 9:10 pm
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
imagino a cara da criatura e você falando com ele no teu tom calmo,frio e cínico kkkkkkkkkkkkk merecido!
Concordo com o texto, é incrível os mecanismos utilizados para conseguir produtividade e como eles são eficazes. Só não entendo porque você não utilizou o termo alienação.
Abril 29, 2008 at 9:27 pm
Pedro: Q bom q gostou! Cuidado com esse negócio de falar de greve e tal, vc vai acabar com minhas chances de crescimento profissional rsrrsr
Renato: Não utilizei o termo alienação pq a análise não foi pelo viés marxista. além do mais, minha leitura tange mais à Psicologia que à Sociologia.
Abril 29, 2008 at 10:46 pm
haeuheuaheuehu muito bom, huaeheuaheuheuaheu
è o sistema minha linda, se submeta e faça parte, nao se submeta e faça parte tambem.
Maio 5, 2008 at 9:16 pm
Texto brilhante…….
Interessante me deparar com algo assim no atual momento da minha vida: Frustração profissional elevada ao máximo….Duas coisas me ocorreram: 1ª a minha apatia desconcertante diante da vida e a segunda, e ñ menos importante, é o fato de saber que boa parte de meus alunos ñ entenderia esse texto. Na verdade as duas coisas estão relacionadas, mas ñ se preocupe, eu jamais usaria esse espaço p/ lamúrias………E como ñ tenho conseguido fazer mais nada…Só te garanto que um dia escreverei algo relevante. (Talvez apenas precise me adestrar ao mundo que escolhi. Só ñ sei se isso será bom……..)