quadro de Frida Khalo

Há dias não escrevo uma linha e gostaria de me explicar (e encher lingüiça) antes que as pessoas percam interesse pelo blog. Tive uma contusão na mão direita e por prescrição médica, devo evitar escrever ou digitar por um tempo.

Uma amiga fez um comentário a um texto e disse que jamais utilizaria este espaço para se lamentar. Azar o dela! Eu o farei. As situações mais patéticas e absurdas acontecem comigo corriqueiramente: é a blusa tomara-que-caia caindo dentro do ônibus; é o esbarrão num poste durante o flerte com o carinha que passa pelo outro lado da rua; acordar às 5:30 hs e chegar tarde na aula; perder a promoção da M. Officer; é ainda não ter caçado um marido rico aos 23 anos; Não é à toa que na minha família quando alguém tem um dia difícil, usamos a expressão “ dia de Marcela”.

Para piorar, a sortuda aqui tá sentindo uma dor desgraçada e tem alergia à maioria dos analgésicos, os que restam causam sonolência, sobrecarregam os rins e só podem ser usados a curtíssimos prazos. Depois de uma análise de custos/benefícios, conclui-se que mais interessante é agüentar a dor sem paliativos (hehehe, eu tinha que dar um jeito de usar a Teoria da Escolha Racional).

É uma terrível ironia o fato de eu ter como opção mais racional suportar a dor; isso porque o pensamento humano tende a evitá-la e a maximizar as possibilidades de prazer; sem cair numa simplificação hedonista, tendemos a evitar o sofrimento e buscar algo parecido com a felicidade. Para mim, nada de evitar, fugir ou negar, só me resta suportar a realidade da dor (gostaria de ter essa coragem em outros aspectos da vida).

Ao menos, dor é uma experiência absoluta, dispensa qualquer máscara, maquiagem ou pose, nos obriga a nos defrontarmos conosco e com ela, se faz espelho. Ela se impõe.

O sofrimento (mais que a dor física) faz parte da existência e quem jamais o experimenta padece de algum mal (no mínimo, indiferença diante da vida). Sofrer significa estar em contato com a realidade, que sentimos com o corpo e alma a tristeza de algumas perdas. É verdade que algumas vezes este estado de espírito não guarda relação com situações concretas (está nos olhos de quem o sente), mas o mundo também nos cobra uma certa alegria histérica.

Considero muita acertada a afirmação de Schopenhauer de que a vida é um turbilhão de desejos que nos condena ao sofrimento, mas sempre que passo por momentos dolorosos (físicos ou não) penso na máxima de Nietzsche de que o que não mata fortalece. É acalentador conferir um caráter teleológico ao sofrimento.

Em suma, depois de meia dúzia de pensamentos sem analgésicos e concluindo meu mea-culpa pela inércia do blog, sei que a maldita dor me lembra que estou viva e que (o martelo nietzscheano pode estar testando minhas certezas) concordo com a belíssima música de Caetano Veloso:

“Solidão apavora

Tudo demorando em ser tão ruim

A lágrima clara sobre apele escura

À noite a chuva que cai lá fora”

PS: O título do texto é um plágio descarado da frase de um amigo (que eu adoro repetir).