Finalmente acabei de ler O Conceito de Angústia do filósofo dinamarquês Sören Kierkgaard. Nele o autor afirma que o homem se angustia e questiona existencialmente por ter opções e poder escolher, o que lembra as idéias de Sartre sobre a liberdade e as náuseas da existência.

Tenho pensado muito sobre a vida, a morte e o suicídio. Depois de postar este texto receberei telefonemas preocupados de amigos, desde já, esclareço que não pretendo morrer por agora; não antes de abarrotar meu guarda-roupas com peças Versace, Prada, Victor Hugo e de conhecer o Louvre, a Catedral de Colônia e Barcelona. Meu interesse pelo assunto é estritamente filosófico.

Há um tabu ocidental em tratar da morte, uma negação. Talvez pensar um pouco acerca da única certeza humana nos ajude a entender e a levar melhor a vida.

Voltando ao suicídio, este pode ser um ato de altivez e coragem, de extrema paixão pela vida e uma recusa em experimentá-la sem a devida plenitude. A morte pode ser ao invés de um evento um processo; optar por morrer pode significar recusar-se a ser zumbi: se a vida assumir uma insipidez mecânica, se os olhos só conseguirem captar o cinza, se a fé na vida se esvair, se os sonhos se esfacelarem, o apetite desaparecer e a comida perder o gosto, só nos resta suportar?

O sistema simbólico é de extrema relevância para a coerência do indivíduo, o que explica a opção por morrer de pessoas em perfeitas condições físicas. Este fato vai de encontro ao princípio mais elementar da existência, o instinto de auto-conservação e ao princípio de realidade e pulsão pela vida freudianos.

O sentido da vida nunca estará dado, implica escolha e decisão. O devir humano é marcado pela procura e a existência é crivada pelo desejo, pela angústia e pelo desespero.

A vida também pode ser desafiadora e fascinante, é o que nos ensina o conceito de atitude soberana de Georges Bataille: experiências que põem em risco a própria existência são, para alguns, bastante sedutoras (assim entendo minha atração pela guerra de espadas, a velocidade e a altura) porque junto ao risco da morte, elas trazem por instantes a vida com uma intensidade ímpar.

Outros recorrem à lírica poética numa tentativa de preencher as necessidades humanas. A vida sem paixão é de uma mediocridade torturante.

Diante de tantas interrogações filosóficas que a vida nos traz, Kierkgaard afirma que “a fé supera qualquer racionalidade”, prega a insuficiência da razão, uma vez que a mesma deixa uma lacuna existencial. Para o filósofo, ainda que o Cristianismo não afaste a angústia e o desespero da existência diante do paradoxo temporalidade/eternidade, possibilita o alcance do mais elevado nível existencial: o estágio religioso.

Para alguns não há o consolo da religião, mas há um livro belíssimo (creio que de Gaston Bachelard) chamado Vida contra a Morte (contra a morte, só a vida) e uma passagem bíblica intrigante: “deixe que os mortos enterrem seus mortos”.

Assim, depois de muitas citações, recorro mais uma vez a Kierkgaard e concluo com um de suas mais acertadas frases: “a angústia é a vertigem da liberdade”.