Maio 19, 2008

Finalmente acabei de ler O Conceito de Angústia do filósofo dinamarquês Sören Kierkgaard. Nele o autor afirma que o homem se angustia e questiona existencialmente por ter opções e poder escolher, o que lembra as idéias de Sartre sobre a liberdade e as náuseas da existência.
Tenho pensado muito sobre a vida, a morte e o suicídio. Depois de postar este texto receberei telefonemas preocupados de amigos, desde já, esclareço que não pretendo morrer por agora; não antes de abarrotar meu guarda-roupas com peças Versace, Prada, Victor Hugo e de conhecer o Louvre, a Catedral de Colônia e Barcelona. Meu interesse pelo assunto é estritamente filosófico.
Há um tabu ocidental em tratar da morte, uma negação. Talvez pensar um pouco acerca da única certeza humana nos ajude a entender e a levar melhor a vida.
Voltando ao suicídio, este pode ser um ato de altivez e coragem, de extrema paixão pela vida e uma recusa em experimentá-la sem a devida plenitude. A morte pode ser ao invés de um evento um processo; optar por morrer pode significar recusar-se a ser zumbi: se a vida assumir uma insipidez mecânica, se os olhos só conseguirem captar o cinza, se a fé na vida se esvair, se os sonhos se esfacelarem, o apetite desaparecer e a comida perder o gosto, só nos resta suportar?
O sistema simbólico é de extrema relevância para a coerência do indivíduo, o que explica a opção por morrer de pessoas em perfeitas condições físicas. Este fato vai de encontro ao princípio mais elementar da existência, o instinto de auto-conservação e ao princípio de realidade e pulsão pela vida freudianos.
O sentido da vida nunca estará dado, implica escolha e decisão. O devir humano é marcado pela procura e a existência é crivada pelo desejo, pela angústia e pelo desespero.
A vida também pode ser desafiadora e fascinante, é o que nos ensina o conceito de atitude soberana de Georges Bataille: experiências que põem em risco a própria existência são, para alguns, bastante sedutoras (assim entendo minha atração pela guerra de espadas, a velocidade e a altura) porque junto ao risco da morte, elas trazem por instantes a vida com uma intensidade ímpar.
Outros recorrem à lírica poética numa tentativa de preencher as necessidades humanas. A vida sem paixão é de uma mediocridade torturante.
Diante de tantas interrogações filosóficas que a vida nos traz, Kierkgaard afirma que “a fé supera qualquer racionalidade”, prega a insuficiência da razão, uma vez que a mesma deixa uma lacuna existencial. Para o filósofo, ainda que o Cristianismo não afaste a angústia e o desespero da existência diante do paradoxo temporalidade/eternidade, possibilita o alcance do mais elevado nível existencial: o estágio religioso.
Para alguns não há o consolo da religião, mas há um livro belíssimo (creio que de Gaston Bachelard) chamado Vida contra a Morte (contra a morte, só a vida) e uma passagem bíblica intrigante: “deixe que os mortos enterrem seus mortos”.
Assim, depois de muitas citações, recorro mais uma vez a Kierkgaard e concluo com um de suas mais acertadas frases: “a angústia é a vertigem da liberdade”.
Maio 20, 2008 at 7:30 am
“Se eu estiver vivo amanhã, eu vou tentar me matar…”
(Gutch - trecho de uma mpusica minha)
Saudades de 97…quando eu tinha coragem de me matar. Foi por pouco. Hoje não tenho mais coragem. Creio que estou “suportando”…
Beijão
Maio 28, 2008 at 4:01 pm
Gutch, adoro teus versos rsrs