Maio 19, 2008

Já tive experiências deliciosas com o silêncio, o contato comigo, meus pensamentos e dúvidas, com a solidão (por vezes) necessária, absoluta e revigorante. Já passei também por situações medonhas com ele. Quem nunca provou uma situação na qual um silêncio constrangedor se instala e conduz a uma tentativa desesperada de preencher o vazio da compainha com palavras frívolas?
Li em algum lugar que um bom teste para descobrir o grau de intimidade que temos com alguém é deixar que o silêncio se instale, se surgir um desconforto, digamos que não há um vínculo muito estreito. Se a compainha para se perfazer não puder prescindir das palavras, ela é efetiva? Amigos viscerais, cúmplices e amantes sabem o quanto o silêncio entre eles pode ser maravilhoso.
O silêncio pode ter vários significados e efeitos: ele acalenta, afaga, convida, repele, omite, aniquila, exprime compreensão ou indiferença. Costumo relegar algumas pessoas e assuntos ao silêncio, ao menos enquanto não consigo lançá-los à indiferença. A Psicanálise já ensinou que as pessoas podem ser muito mais o que calam do que o que falam, existem segredos que nem sabemos que calamos.
Retornando à experiência terrível de quebrar com as palavras o silêncio, creio que tentamos destroçá-lo para esfacelar o que ele significa, a solidão; daí, usamos o outro ou o diálogo como muletas. Ocorre que a sensação de solidão guarda pouca relação com a presença de outrem, aliás, “solidão acompanhada” é a mais triste.
Um amigo me disse que não há nada de errado em dizer o óbvio, por isso eu gostaria de dividir essa grande descoberta: o silêncio desconcerta e nos remete à solidão existencial, independente do fato de haver alguém por perto. Talvez seja por isso que eu gosto de ouvir música muito alto, para não ouvir os sussuros do silêncio.
Agora vos convido a realizar o teste do silêncio.
Maio 20, 2008 at 7:24 am
“vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor”
(Arnaldo Antunes/Carlinhos Brown)
Eu adoro o silêncio, menos o imposto pela saudade. Aliás deveria se cobrar imposto a quem provocasse tal sentimento…
Beijão!!!!!!
Maio 20, 2008 at 3:33 pm
Seu texto é bem oportuno, uma vez que tenho pensado muito na minha necessidade de silêncio e a minha impossibilidade de tê-lo, pois as circunstâncias me impedem.É um saco e por mais q vc tente não “ouvir” vc sente o silêncio da forma mais dolorosa possível. Ele não te escapa, apenas aparece de um jeito chato. Gostaria de poder procurar o silêncio e não que ele me perseguisse… Eu o adoro, mas tb sei que numa jornada só, pode-se ir do céu ao inferno ( e vice-versa) …e vc cair num abismo que não tem mais fim. Ao mesmo tempo, é maravilhoso e reconfortante , como vc bem escreveu…
bjs =)
Maio 20, 2008 at 3:40 pm
O silêncio é fundamental para a meditação….muito louco e muito bom….altas viagens…rs =)
obs: Não acho que música alta evite vc ouvir os sussuros do silêncio….apenas ajuda a disfarçar..pois ele se faz presente por mais que vc resista. Ao mesmo tempo, vc pode estar num lugar super-hiper-mega barulhento e se sentir em completo e absoluto silêncio.
No mais, concordo plenamente com seu texto. bjs
Maio 20, 2008 at 5:14 pm
Gú, concordo. Bjão
Nanda, acho que vc confunde silêncio e solidão (uma coisa remete à outra, mas não se identificam, a meu ver). A música alta apaga o silêncio, não a solidão. Gostei muito do teu comentário, achei poético. bj
Maio 21, 2008 at 3:22 am
Então…posso mandar o boleto bancário???????
Maio 23, 2008 at 4:27 am
Adorei quando você coloca os vários significados e efeitos do “silêncio”… desde de um convite até o repúdio.
Seria bom usamos melhor o “silêncio” para interagimos com nós mesmos e com outras pessoas. Interação não só de atrair…
Mas mesmo que o “silêncio” pode, e deve, ser usado para nos descobrimos (além de muitas outras finalidades), sempre iremos recorrer as “falas” do nosso pensamento.
Usar o silêncio para nos escutar… gostei dessa!
Marcela, adorei o texto!!!
beijos
Maio 25, 2008 at 11:29 pm
“O som aniquila a grande beleza do silêncio.” [Charles Chaplin]
Nada como o silêncio, para nos fazer notar as pequenas “orquestras” da natureza.
Um dos momentos mais tranquilos de minha vida foi quando me abriguei da chuva embaixo de uma grande castanheira no interior de Alagoas. Passei uns 10 minutos apenas ouvindo o vento soprar entre os galhos, as gotas de chuva batendo nas folhas, e por um instante, eu me senti a única pessoa no mundo.
Maio 28, 2008 at 4:00 pm
Menino Inocênio, fico feliz que tenha gostado do texto. Muito enriquecedor teu comentário. Volte sempre rsrrsrs :*
Rodrigo, bonita experiência.
Maio 30, 2008 at 3:42 am
Não tinha notado a imagem. O anjo…
me lembra Asas do Desejo onde os anjos não se comunicam diretamente com os humanos. Suas palavras surgem como pensamentos nas mentes das pessoas, configurando o silêncio externo e a introspecção interna. Momentos belos.
Poetizando, a imagem do leão e o anjo de costas para ele (nessa situação de não poder falar diretamente), dá pra tecer diversas interpretações, inclusive cotidianas…
Beijão Isis!!!!
Junho 16, 2008 at 5:13 pm
Marcela,
Gostei do texto e do site. Se você quiser publicar, vai aqui um texto do escritor uruguaio Eduardo Galeano, em O Livro dos Abraços,que achei bacana.
Um beijo,
Nestor
Noite de Natal
Fernando Silva dirige o hospital de crianças, em Manágua. Na véspera do Natal, ficou trabalhando até muito tarde. Os foguetes espocavam e os fogos de artifício começavam a iluminar o céu quando Fernando decidiu ir embora. Em casa, esperavam por ele para festejar.
Fez um último percorrido pelas salas, vendo se tudo ficava em ordem, e estava nessa quando sentiu que passos o seguiam. Passos de algodão: virou e descobriu que um dos doentinhos andava atrás dele. Na penumbra, reconheceu-o. Era um menino que estava sozinho. Fernando reconheceu sua cara marcada pela morte e aqueles olhos que pediam desculpas, ou talvez pedissem licença. Fernando aproximou-se e o menino roçou-o com a mão:
- Diga para… - sussurrou o menino. - Diga para alguém que estou aqui.
Junho 26, 2008 at 3:25 am
Ah! o silêncio. O que seria de mim sem ele. passo metade do tempo escutando-o. A outra metade é ouvindo música [rsrs]. É um Q de equílíbrio que só fica afetado quando fico em estado de solidão ou de tristeza (consequência da solidão). A solidão tem a ver com o silêncio, mas tbm com o barulho. Não é uma questão puramente de disposição ou não de sons. É muito mais emocional, interior que, em muitas vezes, tem motivo por um caráter externo, enfim. Fato é que no silêncio, essas coisas desabrocham, ou melhor, te constrangem, e o refúgio (muitas vezes necessário) é ouvir uma música, assistir a tv, enfim…
Porém acho o silêncio tão necessário quanto a vontade desenfreada de detê-lo: Antes de dormir, quando estou indo a qualquer lugar de buzão, na poltrona da janela [rsrs], são os momentos que penso e repenso várias coisas, várias possibilidades, meus rompantes musicais de inspiração pruma letra, um arranjo de cordas ou como mandar fulano se f@#$%¨[rsrs], são momentos, dentro dessa nossa cultura da velocidade, indispensáveis. O silêncio é necessário, volto a dizer. Tão necessário quanto a vontade que tive de responder a esse artigo, fazendo barulho, ouvindo e tocando Bob Marley & The Wailers e meu irmão ao fundo assistindo ao DVD do Dream Theater [rsrs]. Ai, ai huahuahauhuahauhau……
Beijo Marcela, flor de mi corazón.
Junho 26, 2008 at 8:10 pm
Gú, coincidência a imagem tbm me lembrou Asas do Desejo, filme belíssimo que já reassisti muitas, mas muitasss vezes[e uma destas foi contigo]. Bjos
Nestor, obrigada pelo elogio, fico lisongeada por recebê-lo de alguém que tem tanta intimidade com o ato de escrever, um jornalista. Bonito texto, vou procurar o livro. Espero que, mesmo de outro continente, vc mantenha o bom hábito de frequentar estas pairagens. Bj
Anderson, amei o “flor de mi corazón” srsrss. Gostei do teu comentário, alguém tão apaixonado pela música qto vc tem realmente uma relação muito peculiar com os sons e o silêncio. Bjão =)