Já tive experiências deliciosas com o silêncio, o contato comigo, meus pensamentos e dúvidas, com a solidão (por vezes) necessária, absoluta e revigorante. Já passei também por situações medonhas com ele. Quem nunca provou uma situação na qual um silêncio constrangedor se instala e conduz a uma tentativa desesperada de preencher o vazio da compainha com palavras frívolas?

Li em algum lugar que um bom teste para descobrir o grau de intimidade que temos com alguém é deixar que o silêncio se instale, se surgir um desconforto, digamos que não há um vínculo muito estreito. Se a compainha para se perfazer não puder prescindir das palavras, ela é efetiva? Amigos viscerais, cúmplices e amantes sabem o quanto o silêncio entre eles pode ser maravilhoso.

O silêncio pode ter vários significados e efeitos: ele acalenta, afaga, convida, repele, omite, aniquila, exprime compreensão ou indiferença. Costumo relegar algumas pessoas e assuntos ao silêncio, ao menos enquanto não consigo lançá-los à indiferença. A Psicanálise já ensinou que as pessoas podem ser muito mais o que calam do que o que falam, existem segredos que nem sabemos que calamos.

Retornando à experiência terrível de quebrar com as palavras o silêncio, creio que tentamos destroçá-lo para esfacelar o que ele significa, a solidão; daí, usamos o outro ou o diálogo como muletas. Ocorre que a sensação de solidão guarda pouca relação com a presença de outrem, aliás, “solidão acompanhada” é a mais triste.

Um amigo me disse que não há nada de errado em dizer o óbvio, por isso eu gostaria de dividir essa grande descoberta: o silêncio desconcerta e nos remete à solidão existencial, independente do fato de haver alguém por perto. Talvez seja por isso que eu gosto de ouvir música muito alto, para não ouvir os sussuros do silêncio.

Agora vos convido a realizar o teste do silêncio.