Não se enganem com o título, não é sobre a dupla condição das mercadorias (signo e objeto) que trata esse texto, muito menos de massificação e consumo, prefiro a tudo isso o trivial.
Como típica soteropolitana, fui assaltada mais uma vez quando voltava de uma festa e levaram minha bolsa de mão que continha meu celular e minha máquina fotográfica (com as fotos que restavam do ex-namorado), em suma, levaram um pedaço significativo da minha memória. Lamentei não apenas por um materialismo consumista, acima disso, pelas recordações que me foram tomadas.
Soa piegas e cristão (que redundância), mas até de acontecimentos ruins é possível extrair coisas positivas: livrei-me de fotos, recordações e contatos que por covardia ou conformismo ainda faziam parte do meu mundo por mais anacrônicos que fossem. Não levaram apenas maravilhas eletrônicas, levaram parte da rocha de Sísifo e da minha cruz.
É engraçado o apego desesperado que temos a fatos do passado e a nossa recusa em aceitá-los enquanto tais, seja um amor perdido, seja um amigo que já não compartilha conosco ideais ou convivência. A forma como protegemos nossas recordações, construímos relicários e não nos libertamos de pessoas, padrões ou conceitos (por mais caducos que sejam) nos faz carregar muito peso; lembranças, mágoas, rancores, remorsos que não apenas implicam em sofrimento como nos distrai do presente.
Não afirmo a necessidade negar ou fugir do sofrimento e sim celebrá-lo, mas com a consciência de que é necessário ir além dele, que ter recordações é diferente de viver delas e que quanto mais rápido o processo de elaboração e digestão do luto e das frustrações, mais tempo nos sobra para novas experiências e felicidade na curta vida que temos. Algum tipo de prazer masoquista nos faz, com freqüência, arrancar cascões de forma reiterada e impedir a cicatrização de feridas, caímos num ciclo vicioso e destrutivo: é importante compreender que se a dor não vai embora, ao invés de cultuá-la devemos seguir apesar dela.
Como escreveu Jorge Luís Borges “A derrota me satisfaz porque aconteceu, porque está inumeravelmente unida a todos os fatos que são, que foram, que serão, porque censurar ou deplorar um só fato real é blasfemar contra o universo”. Dançar na dor/escuridão, expressão nietzschiniana, é uma aprovação jubilatória da existência, daí o conceito de amor fati: é aceitar os fatos da existência (amá-los) sem cair no conformismo ou passividade, fazer as pazes com o seu destino e fazê-lo da melhor forma possível, já que estamos condenados ao eterno retorno.
É preciso viver de forma intensa e altiva o que a vida nos trouxer ou os labirintos que desenhamos sem nos perder nas lamentações, ressentimentos, piedade de si ou saudosismo, se recusar a viver nos paraísos perdidos ou das miragens de outrora, sem perder o sono e o equilíbrio pelos fantasmas do pretérito. Verdade que a capacidade de lembrar nos faz humanos, mas desconfio que não entendemos ainda a importância de esquecer, não se trata de desprezar acontecimentos que forjaram nossa própria identidade, mas entender que as coisas passam com uma velocidade vertiginosa, que é preciso saber partir, deixar partir e entender que muitas das escolhas que fazemos na vida depende de nossa capacidade de recomeçar e de deixar o passado em seu devido lugar.
É uma recusa a reviver o mito de Sísifo, condenado refazer sua trajetória com o grande peso que carrega. Se nos livrarmos das relíquias, tudo que sobra é o vazio que tem um sabor maravilhoso de vida e liberdade, fervilha de infinitas possibilidades. Sem as múmias, há apenas papel em branco e o convite a preenchê-lo; sem as certezas ou garantias, só resta o porvir, ou melhor, o agora.
É claro que esta é só mais uma das perspectivas possíveis diante da vida, que cada um é único, tem seu próprio tempo e que não existe fórmula coletiva de felicidade, no entanto, por enquanto, este é o ângulo que me parece mais acertado.
Sem tramas, dramas ou ressentimentos do passado, aceito apenas o risco de estar viva e escolho a simplicidade do presente. Se a vida é uma jornada, eu gosto de viajar leve, sem trapos nem álbuns, com algumas cicatrizes e tatuagens, mas sem cultivar feridas. Sigo apagando rostos, rasgando bilhetes, dispensando arrependimentos e lamentações, não levo muita bagagem; na estrada me basta uma bolsa de mão (exatamente do tamanho da que me foi roubada).

Novembro 11, 2008 at 6:59 pm
Tá lindo o texto. Apesar do tom otimista, o inverso do meu agora.
Quando se quer lembrar de alguma coisa amarramos um cordão no dedo, trocamos a carteira de bolso, colocamos mensagem no celular. E quando se quer esquecer?
A verdade é que as vezes as feridas não saram nunca. A dor é eterna. A morte de alguém que se ama é o símbolo maior disso, mas acontece o tempo todo.
Preciso é aprender a viver com o sofrimento. Fingir que ele não está lá é como meditar na dor. Funciona, mas exige esforço, e se você vacilar por um momento ele volta.
O “fantasma das alegrias passadas” é uma assombração terrível.
E você pode meditar, rasgar, se drogar, trepar, correr. Só não pode esquecer.
Às vezes acho que você pode olhá-lo nos olhos ou fingir que ele não existe como for. Ele parece ter vontade própria e desaparece quando bem entende.
Sim, porque se sente saudade dele também. Às vezes você quer sentir novamente aquela alegria passada e… nada. Ou quase nada.
E você fica triste de outro jeito, como uma criança que perde seu amigo imaginário e que nunca mais o verá.
Novembro 11, 2008 at 7:00 pm
OBS: Sou um homem desgraçado!
Hahehaehahehahe!
Novembro 13, 2008 at 12:22 pm
Acho bonita e triste ao mesmo tempo a forma como vc encarava vida e as pessoas, meio cruel até… Teu texto me deixou pensativo, ele é muito bonito e poético, vc tem boas “sacadas”. Parabéns, é por esssas e outras que venho neste espaço com frequêcia.
Novembro 13, 2008 at 12:22 pm
Belíssima a imagem que você colocou, mas esqueceu de citar a fonte.
Novembro 13, 2008 at 12:42 pm
Tiago , adorei teu comentário, tô ruminando ele até agora…rrsrs
Ah, valeu, não lembro de alguém já ter me chamado de otimista rsrrsrs
=)
Caio, obrigada!
Em relação à imagem, não coloquei a fonte pq achei no google e não fazia referência à fonte… lam entável isso, é bonita, o fotógrafo devia levar os créditos.
=)
Novembro 13, 2008 at 2:12 pm
Belíssimo o texto…..Bem, sb a importância de esquecer, tenho tentado exercitar isso; mas há um receio em me perder nesse exercício/processo…Se bem que isso é em vão, pois ando perdida nas lembranças…….
T amooooo
Novembro 13, 2008 at 9:31 pm
Prezada Marcela, certamente que não nos conhecemos, apesar de termos em comum alguns amigos e/ou conhecidos. Li alguns de seus textos e, como estudioso da filosfia nietzschiana, admirei este por revelar alguns fundamentais aspectos daquela filosofia. Parabéns, admirável!
Novembro 18, 2008 at 1:12 pm
Josemar , fico feliz e curiosa ao mesmo tempo…
Nietzsche está sempre presente em meus textos e cada vez mais me aproximo da Filosofia Clínica (uma mistura de Filosofia com Psicologia) onde os conceitos nietzschianos são fundamentais para lidar com sofrimentos e frustrações.
Muito bom vc ter gostado, obrigada!