Anteontem, numa festa de bota-fora de um prezado amigo (que me ensinou o valor da cultura popular), conheci a um jovem psicólogo que me indicou, em meio ao bom som da Banda Panos e Mangas e a uma conversa sobre cinema, o filme Die Welle ( A Onda).
Tenho prestado atenção no cinema alemão e me encantado com filmes como The Edukators e Das Experiment. Fiquei tão empolgada que, quando cheguei à minha casa às 3:00 hs da manhã, fui tentar baixar o filme (óbvio que não consegui, já que não sou extamente um gênio da informática).
Embora ambientado na Berlim contemporânea, o filme, do diretor Dennis Gansel, baseia-se num episódio real que aconteceu nos EUA, em 1967 com o professor Todd Strasser. Desconcertante é o fato de que poderia ter acontecido em qualquer lugar.
O professor Rainer Wenger, acostumado a trabalhar com a matéria Anarquismo, se vê obrigado a lecionar Autocracia num dado semestre. No primeiro dia de aula, ao provocar os alunos sobre o tema, eles respondem de forma apática, consideram o tema óbvio, esgotado e anacrônico.
O alunado é uma amostra da juventude típica de uma sociedade que atomiza, de uma geração individualista em um mundo competitivo, que preza marcas e status e que “não tem pelo que lutar, o assunto mais procurado no Google é a Paris Hilton”. Logo, eles rechaçam a possibilidade de ressurgimento de sistemas totalitários e excludentes.
Rainer propõe uma experiência durante uma semana: ele seria o líder absoluto (conforme escolha dos alunos) e estabelece uma série de mudanças: o lugar onde cada um deveria sentar-se, a forma de falar, expulsa os discordantes. O processo continua: eles passam a ter uma farda, um símbolo, uma saudação e, de repente, estão marchando na sala de aula, obedecendo fervorosamente às ordens do carismático líder.
A experiência muda as vidas dos envolvidos, aplaca suas demandas, preenche seus vazios, ganha notoriedade, atrai perplexidade. Não é mais apenas uma experiência pedagógica.
Eles se autodenominaram A Onda e tornam-se um grupo coeso, fechado, que se protege e exclui dissidentes. Da associação, do sentimento de identidade, grupo e pertencimento, passam à intolerância e, os extremistas, beiram o fanatismo.
O filme desnuda como a manipulação de grupos é simples e possível, ainda mais através da ação participativa, da disciplina e do carisma. Tema que, se não é novo, não é anacrônico e é uma metáfora que se aplica muito bem à psicologia das massas e à servidão voluntária: seja na Alemanha nazista, na Itália fascista, no período stalinista, no Ku Klux Klan, no Baden Meinhoff, nos governos neo-populistas sul-americanos. E, ao menos em se tratando do efeito manada e na capacidade de fazer absurdos, nas torcidas de futebol, nos linchamentos causados por comoção popular, no caso da UNIBAN…
No filme, as coisas saem do controle e o professor desmascara a ideologia autoritária dos jovens (que se supunham vacinados):
“Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em “A onda’. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho”.
Na vida real, nem sempre há alguém desmascarando a manipulação e a intolerância que se escondem atrás de palavras bonitas como justiça, união, superioridade, raça, padrão, grupo, partido, normal, bem comum, moral e com as quais estamos (irracional e) visceralmente envolvidos. Raramente há alguém “de dentro” convidando-convocando à auto-crítica ou ouvidos dispostos a escutar e refletir, ao invés de reprimir imediatamente a discordância…
Ao moço que me indicou, obrigada, realmente é um filme estimulante. Como minha memória me prega peças, não consigo lembrar teu nome, mas, se um dia você ler a este post, espero que se dê conta de que, em menos de 24 hs, eu assisti à tua indicação.

fevereiro 18, 2010 at 4:04 am
E cá estou. Pois então, Isis querida. Segui sua indicação e assisti o filme (menos de 24 horas depois). E já to indicando! Temos que tomar cuidado para que isso não se torne uma onda.
Mas realmente o filme é uma onda. Mexe com vários sentimentos e de um início “político” se torna cada vez mais “psicologizante”. E o mais cruel é que pelo menos eu me enxerguei ali, fazendo parte da onda. Quase todo mundo gosta de se sentir protegido e de fazer parte de algum grupo, de ter algo a seguir. Claro que existem limites, que são individuais e não coletivos. Cada um tem sua propria linha de chegada, seu climax, sua crise e por isso uns vão mais além que outros. Uns se perdem, outros se acham. Uns radicalizam e outros entendem a hora de retroceder e “aprender”. Como numa linda música de Peter Hammill “o limite entre o social e o suicídio” é muito tênue (será que Hammill leu Durkheim???). Infelizmente vemos isso no filme. Eu não chegaria tão longe, mas…será que eu me conheço tão bem pra garantir isso?
Isis…espero que vc não esqueça QUEM te indicou um belíssimo filme alemão (que aliás esse colega que te ensinou a dar valor a cultura popular tbm assistiu, conosco) que filosofa sobre liberdade, desejo e sofrimento. Tbm tenho minha parcela de culpa pela sua incursão no cinema alemão.
E sim. Estou com ciúme.
Beijão e continue me indicando bons filmes!
fevereiro 18, 2010 at 8:23 pm
Gú, m senti exatamente como vc descreveu.
É vero, minha incursão começou (sob tua batuta) com o lindo e inteligente Asas do Desejo de Wim Wenders (q já reassisti inúmeras vezes). Depois é q vieram Edukators e Das Esperiment.
Putz bateu agora uma saudade das sessões de cinema, poesia, vinho, discussões. Belos filmes, textos, assuntos e amigos interessantes e inteligentes (ciclo seletíssimo do qual vc faz parte)rsrrsrs
Não tenha ciúme, honey, vc tem espaço cativo em meu coração (vc sabe!).
Beijão
março 16, 2010 at 7:13 pm
Dizem que é remake de The Wave, mas eu não concordo. A temática é a mesma, apenas. Mesmo assim, um dos melhores filmes que vi nos últimos anos. Está no top 10 com certeza!!
É um pouco assustador quando você percebe que podemos ser controlados tão facilmente, não é? Gosto dele pq gera uma discussão política e social muito bacana…
Falo mais um pouco sobre minha opinião no meu blog. Dá uma passada lá e me conta o que achou…
Abs.
março 19, 2010 at 1:48 am
Rê,
Concordo com ti, tbm acho assustadora a facilidade com q a manipulação pode ocorrer.
Adoraria dar uma olhada no teu blog, mas vc não deixou o endereço…
ABS
março 19, 2010 at 12:45 pm
Verdade, meu blog não apareceu. Achei que iria, pois preenchi o campo site na hora de deixar o comentário.
Ele chama Momento Cinema e ainda está no começo. Os textos que postei até agora são de uns dois anos atrás. Estou reservando um pouco do meu tempo para escrever mais coisas.
Vou deixar o link aqui na mensagem agora.
http://www.momentocinema.com.br
Você já assistiu Klass? É mais voltado ao bullying, só que a classe inteira entra na do popularzinho e a coisa fica bem pesada. Quando um deles tem lutar pelo que é certo e ajudar o colega que sofre na mão da turma, só piora.
Se você gosta de filmes que nos fazem pensar sobre comportamento humano, vai gostar desse também.
Abs.
março 20, 2010 at 4:57 pm
Rê, valeu a dica, não assisti. Com certeza, o verei.
Vou dar um passeio pelo teu blog ttbm.
Abs.
abril 24, 2010 at 1:29 am
Marcela!!!!
Vim conhecer seu blog, por indicação de mamis.. Rs… E adorei muito!!!
Inclusive, adorei a indicação também… Já conhecia o filme e está entre os melhores dos filmes mais recentes que vi… Muito bom!
Sua escrita é envolvente e elegante…
Um prazer conhecer seu blog!
Vou me tornar assídua… Rs…
abril 25, 2010 at 5:11 pm
Fico lisongeada, Julinha. Q bom termos gostos parecidos, fico feliz q tenha gostado!
bjo