A persistência da memória- tela de Salvador Dalí

Minha relação com o tempo é muito peculiar, tenho a sensação de  que ele me consome, devora meus vínculos, destroça os sentimentos.  Sou aflita, ansiosa, hiperativa: talvez seja o medo da morte, talvez seja o medo da vida. Outra coisa que freqüentemente me toma horas do dia (e da noite) é pensar sobre recordações e esquecimento, necessidade e desejo. Tenho problemas de memória: esqueço nomes, rostos, fatos, eventos…  Volta e meia alguém me pergunta se esquecer  é um problema, sempre  respondo que é uma solução.

Há poucos posts atrás, escrevi:

É engraçado o apego desesperado que temos a fatos do passado e a nossa recusa em aceitá-los enquanto tais, seja um amor perdido, seja um amigo que já não compartilha conosco ideais ou convivência. A forma como protegemos nossas recordações, construímos relicários e não nos libertamos de pessoas, padrões ou conceitos (por mais caducos que sejam) nos faz carregar muito peso; lembranças, mágoas, rancores, remorsos que não apenas implicam em sofrimento como nos distrai do presente.

É preciso viver de forma intensa e altiva o que a vida nos trouxer ou os labirintos que desenhamos sem nos perder nas lamentações, ressentimentos, piedade de si ou saudosismo, se recusar a viver nos paraísos perdidos ou das miragens de outrora, sem perder o sono e o equilíbrio pelos fantasmas do pretérito. Verdade que a capacidade de lembrar nos faz humanos, mas desconfio que não entendemos ainda a importância de esquecer… (Minha Bolsa de Mão- Marcela Isis)

Tava pensando num lindo filme chamado O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças hoje e  foi um boa surpresa abrir a um livro Hesse e encontrar nele a minha aflição. Segue abaixo a citação e outras de quem também conhece/conhecia o real significado do esquecimento:

“Toda a história do mundo não é mais que um livro de imagens refletindo o mais violento e mais cego dos desejos humanos: o desejo de esquecer.” Hermann Hesse.

“Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram maior proveito dos equívocos.” Friederich Nietzsche.

“Eis a nossa sina:  esquecer para ter passado, mentir para ter futuro.” Mia Couto,