Minha relação com o tempo é muito peculiar, tenho a sensação de que ele me consome, devora meus vínculos, destroça os sentimentos. Sou aflita, ansiosa, hiperativa: talvez seja o medo da morte, talvez seja o medo da vida. Outra coisa que freqüentemente me toma horas do dia (e da noite) é pensar sobre recordações e esquecimento, necessidade e desejo. Tenho problemas de memória: esqueço nomes, rostos, fatos, eventos… Volta e meia alguém me pergunta se esquecer é um problema, sempre respondo que é uma solução.
Há poucos posts atrás, escrevi:
É engraçado o apego desesperado que temos a fatos do passado e a nossa recusa em aceitá-los enquanto tais, seja um amor perdido, seja um amigo que já não compartilha conosco ideais ou convivência. A forma como protegemos nossas recordações, construímos relicários e não nos libertamos de pessoas, padrões ou conceitos (por mais caducos que sejam) nos faz carregar muito peso; lembranças, mágoas, rancores, remorsos que não apenas implicam em sofrimento como nos distrai do presente.
É preciso viver de forma intensa e altiva o que a vida nos trouxer ou os labirintos que desenhamos sem nos perder nas lamentações, ressentimentos, piedade de si ou saudosismo, se recusar a viver nos paraísos perdidos ou das miragens de outrora, sem perder o sono e o equilíbrio pelos fantasmas do pretérito. Verdade que a capacidade de lembrar nos faz humanos, mas desconfio que não entendemos ainda a importância de esquecer… (Minha Bolsa de Mão- Marcela Isis)
Tava pensando num lindo filme chamado O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças hoje e foi um boa surpresa abrir a um livro Hesse e encontrar nele a minha aflição. Segue abaixo a citação e outras de quem também conhece/conhecia o real significado do esquecimento:
“Toda a história do mundo não é mais que um livro de imagens refletindo o mais violento e mais cego dos desejos humanos: o desejo de esquecer.” Hermann Hesse.
“Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram maior proveito dos equívocos.” Friederich Nietzsche.
“Eis a nossa sina: esquecer para ter passado, mentir para ter futuro.” Mia Couto,

fevereiro 23, 2010 at 5:47 am
Tava há um tempo sem entrar aqui, tinha meio que esquecido como vc escreve bem.
fevereiro 23, 2010 at 12:29 pm
Airthon, não venha m bajular, o Vitória dará uma surra no BAhia domingo, man. Estaremos lá p ver? hehhehe
Brincadeirinha, obrigada, moço, q bom q gosta. Trata de lembrar, se esforça p esquecer outras voisas rsrrs
Bj
abril 1, 2010 at 11:37 pm
“Existem tantas verdades quantos indivíduos e suas percepções singulares de mundo e significados.”
É a mais pura verdade. Na minha opinião, é tão interessante conhecer as percepções de outrem sem se comprometer com elas. Comprometer-se com qualquer ramo da sabedoria (seja ele científico ou simplesmente filosófico) esbarra num tipo de limitação (a que o indivíduo se encarcera, muitas vezes espontaneamente). Comprometer-se com algum tipo de crença é abrir mão de outras e outras mais, provavelmente mais ricas e plenas. Assumir uma única perspectiva é não estar em infinidades de outras perspectivas que existem por ai. Resumindo, ganha-se de um lado, perde-se de outro. Prefiro deslizar na realidade feito música, conhecendo tudo e, ao mesmo tempo, não conhecendo nada. Reconhecer que há uma pluralidade de verdades é mais divertida do que tentar achar um único sentido para tudo.
outubro 20, 2010 at 9:03 pm
Você escreve muito bem. Encontrei-a graças a Goya e seu “Cronos Devorando Os Filhos”. Muitas vezes as imagens conduzem as nossas percepções e estabelecem contatos com o que chamamos de realidade e pessoas. Ainda bem! Não creio que a responsabilidade seja unicamente nossa. Então agradeço aos Titãs e a Goya a oportunidade de conhecê-la.
Beijos