O velho sonho: eu sentada numa aula de Política V e o prof. diz: “Max Weber costumava dizer que fazia ciência para descobrir até onde ele podia suportar a realidade”. Ele se volta para mim e dispara: “E você, Marcela? O quanto da verdade é capaz de suportar?”
O ambiente é familiar, eu fui aluna de Antônio Oliveira e ele fazia sempre essa citação weberiana desafiadora ao apresentar com maestria e cinismo teorias políticas que punham em cheque Democracia, Poder, igualdade, Feminismo… No sonho, estavam pessoas que foram realmente meus colegas, a mesma sala, o mesmo quadro, as mesmas posições.
Sonho curto, recorrente e perturbador. Não tenho conhecimento suficiente para uma análise psicológica sobre sonho e inconsciente, mas a pergunta me basta. O que me chama a atenção é que o docente extrapola a esfera acadêmica/científica ao se reportar diretamente a mim e não sobre realidade objetiva, mas sobre VERDADE. Creio que revelações científicas, por mais perturbadoras, são muito mais fáceis de digerir que algumas pessoais.
Sei que (como me lembrou um amigo especial), em se tratando de pessoas e relacionamentos, não há uma verdade objetiva. Existem tantas verdades quantos indivíduos e suas percepções singulares de mundo e significados.
A despeito disso, há fatos e situações objetivas e, se o mais perto de que se pode chegar da verdade é buscá-la, para a construção de minhas verdades, preciso de conhecimento profundo de contexto, conjuntura e das percepções (verdades) alheias. Quanto menos lacunas eu deixar a ser preenchida pela minha imaginação pueril, melhor.
Existem formas peculiares de lidar com a realidade e manifestações psicológicas que vão do simples esquecimento (perda da experiência), traumas até a esquizofrenia (construção de realidades descoladas do “mundo real”). Há fenômenos mais amenos como a retração frente a fatos da realidade, a simples negação, a recusa em assimilar fatos óbvios e incontestes.
Essa questão sobre verdade, realidade e a forma como se lida com elas está intimamente imbricada à própria questão da sanidade. Acreditar em mentiras confortáveis, tenham sido contadas por outrem ou imaginadas, tem a ver com escolha, conhecimento, coragem e a capacidade de lidar com fatos concretos na construção da verdade-realidade subjetiva.
Há uma célebre frase (cuja autoria desconheço) que diz que ignorância é uma dádiva. Sempre a achei forte e sua validade depende do sujeito sobre quem se fala: por agora, esta não é a minha escolha e prefiro seguir destroçando miragens, minhas miragens. Ainda que sejam belas, doces, sedutoras, deliciosas e que este seja um processo doloroso, não, obrigada. Belas cenas sem substrato fático não me servem, nem sempre se quer conforto.
Termino este post com a sensação de não ter escrito nada que valha para outrem, mas espero ter conseguido responder ao questionamento oniricamente formulado. Acima disso, o concluo com a esperança de ter exorcizado a pergunta de minha vida.

março 7, 2010 at 6:02 pm
Muito foda, sonhos recorrentes são sempre interessantes. Este desafia, te desafia, te testa. Gostei da resposta, gostei do texto.
Parabéns!
Beijos admirados de teu fã,
Rafa
março 9, 2010 at 12:00 am
Muito engraçado, não te conheço, mas fomos alunas de Atônio em épocas distintas. Ainda lembro da citação e do quanto ele gostava de Weber.
Não acho incomum que um professor austero como ele te provoque pesadelos rsrrsrs brincadeirinha.
Gostei muito do texto e foi uma boa indicação teu blog, parabéns!
março 9, 2010 at 2:18 am
Segunda tentativa!
Huaaaaaaaa
Todo mundo fala da austeridade de Antonio, mas todo mundo que pega disciplina com ele quer pegar outra e outra e outra….
Quanto ao texto, acho instigante essa maneira de usar a “verdade”. Digo isso porque não gosto desse termo usado dessa forma. Me parece que ao estabelecer uma verdade, cria-se um mundo de mentiras ao redor.
Sempre achei uma frase bonitinha e antropologicamente correta, mas semânticamente imperfeita e bobinha.
Sonhos recorrentes são sempre interessantes, pois devem significar algo. Sei que vc não é dessa onda mística que me acomete, por isso nem adianta ir longe nisso.
Mas eu gosto de sonhos. Seja qual for o tipo.
Tava lendo um texto sobre Asas do Desejo, que fala sobre a capacidade de sonhar. Achei interessante e…quem sabe vc não goste.
Bjs, moça
março 11, 2010 at 9:08 pm
bom tudo é uma interpretação de uma outra interpretação e esse mundo real é altamente imaginario, quando vc puder me apresenta ele pois eu não o conheço, foi deus que inventou ele?
Toda impressão que se tem da realidade é fruto de um conhecimento, a realidade não muda, não é real ou irreal o que muda sim é a minha compreensão, de acordo com a minha interpretação.
nada é profundo ou raso, as coisas são escavadas e o profundo logo é superficie quando encontrado.
portanto gosto de sua forma de escrever mas esse texto me deu uma ideia de que existe um mundo real que só os sabios e os são podem acessar e uns loucos alienado que vivem em um mundo da lua ou do sol imaginam outro mundo, são segundo a esquerda os alienados, discordo totalmente dos facistas vermelho(esquerdistas) pra mim nada disso, o mundo é unico e apenas interpretrativo.
adoro discutir essa ideias.
março 19, 2010 at 1:44 am
Ronaldo, meu querido, muito bom vc por aqui. Sempre uma honra, mas o texto não quer dizer q existe um mundo real (tão qual o Mito da Caverna) q só os sábios acessam. Tem relação com subjetividade e e realidade individual.
Muito menos uma conotação política, no entanto, tua interpretação só faz enriquecer o texto. Afinal, sabemos q uma vez escrito, o texto é do mundo e das infinitas interpretações. Nem me atrevo a dizer se a mais correta é a minha ou a tua, a minha é só mais uma possível.
Grande abtraço!
março 19, 2010 at 1:46 am
Gutch, amei o comentário e a idéia de verdade ingênua… hehhehe
bjos