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Peter Pan e Sininho 

Numa destas manhãs de sábado, eu estava atrapalhando Pablo Jones e outros amigos que estudavam para um concurso, quando começamos a falar da nossa opção por cursar Direito. Alguém disse “Acho que foi para agarrar mulher e beber cachaça”, tive então que ser sincera: “Entrei para um encontrar um marido, mas as coisas não aconteceram e eu tive que estudar, as provas têm animus ferrandi”.

Foi nesse contexto que nos demos conta de que estamos concluindo o curso e do quanto nossas vidas mudarão em breve. A formatura traz o peso de amadurecer, é o fim de um ciclo e de nossa identidade de estudantes, é uma região de limbo, de transição, de fronteira, de onde vislumbramos o porvir: o início de uma nova fase metafórica e literal em que o papel a ser desempenhado é completamente novo.

Ocorre a intensificação da responsabilidade e das expectativas (nossas e alheias): a partir de agora é necessário construir um nome, uma carreira, patrimônio, a atingir estabilidade, ser bem-sucedido, seguir a fórmula coletiva de felicidade.

No afã de construir o futuro, pode-se aniquilar o agora e na busca pelo status e pelo dinheiro, podemos confundir os meios com os fins.  Neste contexto de incertezas, alguns se questionam o que realmente querem e o que foi introjetado, ensinado que deveriam querer. Tentam raspar camadas de verniz numa tentativa de autoconhecimento, a aplicação da idéia nietzscheniana de “tornar-se o que é”.

Tornar-se adulto é um processo irreversível, mas não queremos sê-lo, não agora, não essas entidades enrijecidas, pesadas, taciturnas, incapazes de recomeços. Envelhecer é ainda mais cruel numa sociedade que cultua a juventude.

Alguns sobrevivem na simulação, querem ser jovens para sempre: rostinhos neotênicos, botox, bermudas e musculação. Procuram incansavelmente a fonte da juventude, querem brilho e vitalidade, congelar o tempo, uma dose imediata de aventura e irresponsabilidade.

O caminho é inexorável, mas pedimos (ou exigimos) que o relógio biológico congele, que o tempo pare, queremos um refúgio na Terra do Nunca. Somos sinceros Peter Pans temendo o crocodilo Tic Tac – aquele que engoliu um relógio…

A despeito de nossos desejos, a vida implica em uma origem e um fim, um sentido, uma continuidade. No entanto, nossa vontade é ultrapassar nosso próprio fim para onde não há qualquer determinação, quebrar a linha e nos projetar do outro lado do espelho. Lá onde tudo perambula indiferentemente de causalidade, sem nostalgia nem uma fé desesperada no futuro, afinal as promessas deste seguem as mesmas trilhas das lembranças do passado: desaparecem, são meros vestígios do real (que se reduz ao agora).

A II Guerra Mundial e o holocausto em especial provocaram mudanças radicais no Direito e em várias outras esferas da realidade. Suas repercussões influenciaram bastante o mundo tal como conhecemos.

À sua época, pairava no Direito o Normativismo de Kelsen que estabelecia a separação entre o Direito e a Ética (ou qualquer outro fator). Pregava o divórcio entre o mundo do ser (sein) e o do dever ser (sollen), conferia absoluta autonomia estatal na produção das normas e na coação.

Ao enclausurar o Direito na pureza epistemológica, permitia a juridicidade de qualquer regime, inclusive do Nazismo, uma vez que o que importava era averiguar se o ato praticado pelo agente é autorizado por norma estabelecida por autoridade legalmente competente, daí os pedidos de absolvição em Nuremberg.

Este foi o problema do Tribunal, após a II GM, ao julgar crimes de torturas e massacres, todos os criminosos se declaravam inocentes, alegando que cumpriam normas pátrias. Pelo Princípio da Legalidade, no dizer de Beccaria, pleiteavam os acusados sua absolvição com perfeita lógica. Era o nó górgio doutrinário ao qual chegava o Direito moderno.

Diante da recusa da impunidade e da aplicação cínica do Direito, para condenar Hess, foi necessário ressuscitar o antigo conceito de crime contra a natureza humana, de claro cunho jusnaturalista e abandonar o legalismo. Foi preciso criar a Justiça Penal Internacional e aplicar o conceito de crime contra a humanidade.

Além das conseqüências no Direito Penal e Internacional, há o surgimento do conceito de Dignidade da Pessoa Humana. Diante das atrocidades e do completo desprezo ao ser humano nos campos de concentração, os doutrinadores perceberam que era necessário abandonar o viés patrimonialista do Direito e tutelar a incolumidade humana de forma efetiva.

Tal conceito foi constitucionalmente reconhecido em diversos países e erigido a Direito Fundamental, ademais no âmbito civil, é o fundamento dos Direitos da Personalidade (vida, honra, nome, imagem…). Ocorreu também o nascimento dos direitos transindividuais (difusos, coletivos e individuais homogêneos).

Uma questão atual decorrente do holocausto é o que fazer com os resultados das pesquisas científicas realizadas nos campos de concentração. Este é um grande dilema ético para a ciência contemporânea: é ético utilizar o resultado de estudos realizados com pessoas de forma perversa, sem limites morais ou humanos? É correto utilizar pesquisas maculadas pelo desrespeito à vida, eivadas de sangue e sofrimento alheio, realizadas num devaneio de atrocidades ímpar?

Eu entendo que sim, que seria um desperdício desconsiderar pesquisas irrepetíveis, isso em nome do avanço científico e das possíveis conseqüências benéficas para a humanidade, como descobertas médicas e genéticas. O que não implica em validar os meios com os quais os resultados foram obtidos.

A questão é se é justo e racional desprezar resultados materiais, já que o fazer não alteraria o passado nefasto, mas pode descortinar possibilidades positivas futuras. Da mesma forma que não se dispensam os avanços conquistados com as tecnologias de guerra.

Depois de ser prolixa como de costume e me estender mais do que deveria, confesso que o que me interessa aqui é mais incitar os leitores do que defender minha opinião, portanto, aguardo os comentários.

 

Já tive experiências deliciosas com o silêncio, o contato comigo, meus pensamentos e dúvidas, com a solidão (por vezes) necessária, absoluta e revigorante. Já passei também por situações medonhas com ele. Quem nunca provou uma situação na qual um silêncio constrangedor se instala e conduz a uma tentativa desesperada de preencher o vazio da compainha com palavras frívolas?

Li em algum lugar que um bom teste para descobrir o grau de intimidade que temos com alguém é deixar que o silêncio se instale, se surgir um desconforto, digamos que não há um vínculo muito estreito. Se a compainha para se perfazer não puder prescindir das palavras, ela é efetiva? Amigos viscerais, cúmplices e amantes sabem o quanto o silêncio entre eles pode ser maravilhoso.

O silêncio pode ter vários significados e efeitos: ele acalenta, afaga, convida, repele, omite, aniquila, exprime compreensão ou indiferença. Costumo relegar algumas pessoas e assuntos ao silêncio, ao menos enquanto não consigo lançá-los à indiferença. A Psicanálise já ensinou que as pessoas podem ser muito mais o que calam do que o que falam, existem segredos que nem sabemos que calamos.

Retornando à experiência terrível de quebrar com as palavras o silêncio, creio que tentamos destroçá-lo para esfacelar o que ele significa, a solidão; daí, usamos o outro ou o diálogo como muletas. Ocorre que a sensação de solidão guarda pouca relação com a presença de outrem, aliás, “solidão acompanhada” é a mais triste.

Um amigo me disse que não há nada de errado em dizer o óbvio, por isso eu gostaria de dividir essa grande descoberta: o silêncio desconcerta e nos remete à solidão existencial, independente do fato de haver alguém por perto. Talvez seja por isso que eu gosto de ouvir música muito alto, para não ouvir os sussuros do silêncio.

Agora vos convido a realizar o teste do silêncio.

O caos se instala em Salvador quando chove. Há algumas semanas fiquei o quíntuplo do tempo médio para fazer o percurso da casa para a faculdade, mas foi agradável porque encontrei um colega e tivemos um diálogo interessante.

Conheço o moço há um bom tempo e sempre soube que temos interesse acadêmico pelos mesmos objetos (violência e criminalidade), mas eu nunca havia conseguido prestar atenção no que ele fala, aliás, esse é um problema que eu tenho em relação a homens muito bonitos: diante de tantos atributos, eu não consigo me concentrar no que falam. É verdade que o guri em questão é meio haribô, mas no dia em que ele descobrir o caminho do shopping…

O gajo trabalha no Complexo Penitenciário e tem sido um expectador privilegiado da rotina carcerária, desde a preferência por Mizunos até a existência do Comando, as drogas, o seguro, os fardas-azuis, a solidariedade, o embrutecimento, a banalização da vida, da violência e da morte, o rompimento com a moral (Übermesch?), a solidariedade, os mecanismo de poder e de sobrevivência.

Chama sua atenção (assim como a minha) as regras informais que moldam o funcionamento das instituições penais e o fato de que provavelmente as mesmas só funcionam pela existência delas. É óbvio que a Lei de Execuções Penais não esgota as possibilidades da experiência punitiva, a realidade não se subsume perfeitamente à norma positiva, mas o que acontece é o oposto do dever ser estabelecido pela dogmática do Direito.

A prisão mostra-se incapaz de corrigir, socializar e prevenir. O infrator é menos importante que as organizações prisionais que coordenam o tráfico, empregos internos, benefícios, relações com parentes, consolidam um fluxo dilatado de conexões com a sociedade livre, a segurança, o poder. Não se pretende devolver o sujeito ressocializado, se negociam sentenças, saída de internos, entrada de objetos.

Há ainda a truculência, a violência legitimada pelo Estado e o fato de grande parcela da sociedade perceber os Direitos Humanos como privilégio de bandidos e os internos/devedores transformam-se de sujeitos em objetos da punição, devendo lhes ser inflingida dor e humilhação a título de jus puniendi para que as contas sejam equilibradas.

O meu amigo também compartilha comigo de uma percepção crítica acerca da lógica e da seletividade sócio-política do sistema prisional e da ineficiência das prisões. Ele é uma recusa, apesar de conhecer a dinâmica institucional, a lógica da proprina e da permissividade, se nega a entrar no jogo. Nada de receber um “agrado” para permitir o fluxo de celulares, de recuar diante de ameaças ou fazer vista grossa para as xuxas, nada de ser conivente com colega que não quer levar o detento para a assistência médica ou que acha que o cacete melhora a síndrome de abstinência de crack que alguns internos apresentam.

Ele é menino muito convicto, com um brilho intenso nos olhos, cheio de ideologia, princípios, valores e é portador de uma ingenuidade deliciosa, crê que sua ação no micro-espaço cotidiano é o ponto de partida para uma revolução radical no sistema.

O garoto não entende que a corrupção é sistêmica e que ser dissidente o expõe a um risco iminente: a represália que o aguarda é inexorável, seja de colegas prejudicados pela sua retidão de caráter, seja de internos sedentos de regalias contra legem. Não é possível sair ileso desta experiência, há uma tensão muito grande no presídio e os princípios orientadores são a corrupção e a truculência.

É lamentável perceber que a desonestidade está tão arraigada que condutas louváveis como a do guri não causam esperança e sim preocupação. Ao me despedir dele me flagrei (em contradição com meu ceticismo) pedindo que forças sobrenaturais o protegessem e que ele arrumasse um novo emprego.

Escrevi este texto para pedir a vocês que incluam o guapo em vossas orações, é que, como sou atéia, Deus jamais me atenderia.

Finalmente acabei de ler O Conceito de Angústia do filósofo dinamarquês Sören Kierkgaard. Nele o autor afirma que o homem se angustia e questiona existencialmente por ter opções e poder escolher, o que lembra as idéias de Sartre sobre a liberdade e as náuseas da existência.

Tenho pensado muito sobre a vida, a morte e o suicídio. Depois de postar este texto receberei telefonemas preocupados de amigos, desde já, esclareço que não pretendo morrer por agora; não antes de abarrotar meu guarda-roupas com peças Versace, Prada, Victor Hugo e de conhecer o Louvre, a Catedral de Colônia e Barcelona. Meu interesse pelo assunto é estritamente filosófico.

Há um tabu ocidental em tratar da morte, uma negação. Talvez pensar um pouco acerca da única certeza humana nos ajude a entender e a levar melhor a vida.

Voltando ao suicídio, este pode ser um ato de altivez e coragem, de extrema paixão pela vida e uma recusa em experimentá-la sem a devida plenitude. A morte pode ser ao invés de um evento um processo; optar por morrer pode significar recusar-se a ser zumbi: se a vida assumir uma insipidez mecânica, se os olhos só conseguirem captar o cinza, se a fé na vida se esvair, se os sonhos se esfacelarem, o apetite desaparecer e a comida perder o gosto, só nos resta suportar?

O sistema simbólico é de extrema relevância para a coerência do indivíduo, o que explica a opção por morrer de pessoas em perfeitas condições físicas. Este fato vai de encontro ao princípio mais elementar da existência, o instinto de auto-conservação e ao princípio de realidade e pulsão pela vida freudianos.

O sentido da vida nunca estará dado, implica escolha e decisão. O devir humano é marcado pela procura e a existência é crivada pelo desejo, pela angústia e pelo desespero.

A vida também pode ser desafiadora e fascinante, é o que nos ensina o conceito de atitude soberana de Georges Bataille: experiências que põem em risco a própria existência são, para alguns, bastante sedutoras (assim entendo minha atração pela guerra de espadas, a velocidade e a altura) porque junto ao risco da morte, elas trazem por instantes a vida com uma intensidade ímpar.

Outros recorrem à lírica poética numa tentativa de preencher as necessidades humanas. A vida sem paixão é de uma mediocridade torturante.

Diante de tantas interrogações filosóficas que a vida nos traz, Kierkgaard afirma que “a fé supera qualquer racionalidade”, prega a insuficiência da razão, uma vez que a mesma deixa uma lacuna existencial. Para o filósofo, ainda que o Cristianismo não afaste a angústia e o desespero da existência diante do paradoxo temporalidade/eternidade, possibilita o alcance do mais elevado nível existencial: o estágio religioso.

Para alguns não há o consolo da religião, mas há um livro belíssimo (creio que de Gaston Bachelard) chamado Vida contra a Morte (contra a morte, só a vida) e uma passagem bíblica intrigante: “deixe que os mortos enterrem seus mortos”.

Assim, depois de muitas citações, recorro mais uma vez a Kierkgaard e concluo com um de suas mais acertadas frases: “a angústia é a vertigem da liberdade”.

quadro de Frida Khalo

Há dias não escrevo uma linha e gostaria de me explicar (e encher lingüiça) antes que as pessoas percam interesse pelo blog. Tive uma contusão na mão direita e por prescrição médica, devo evitar escrever ou digitar por um tempo.

Uma amiga fez um comentário a um texto e disse que jamais utilizaria este espaço para se lamentar. Azar o dela! Eu o farei. As situações mais patéticas e absurdas acontecem comigo corriqueiramente: é a blusa tomara-que-caia caindo dentro do ônibus; é o esbarrão num poste durante o flerte com o carinha que passa pelo outro lado da rua; acordar às 5:30 hs e chegar tarde na aula; perder a promoção da M. Officer; é ainda não ter caçado um marido rico aos 23 anos; Não é à toa que na minha família quando alguém tem um dia difícil, usamos a expressão “ dia de Marcela”.

Para piorar, a sortuda aqui tá sentindo uma dor desgraçada e tem alergia à maioria dos analgésicos, os que restam causam sonolência, sobrecarregam os rins e só podem ser usados a curtíssimos prazos. Depois de uma análise de custos/benefícios, conclui-se que mais interessante é agüentar a dor sem paliativos (hehehe, eu tinha que dar um jeito de usar a Teoria da Escolha Racional).

É uma terrível ironia o fato de eu ter como opção mais racional suportar a dor; isso porque o pensamento humano tende a evitá-la e a maximizar as possibilidades de prazer; sem cair numa simplificação hedonista, tendemos a evitar o sofrimento e buscar algo parecido com a felicidade. Para mim, nada de evitar, fugir ou negar, só me resta suportar a realidade da dor (gostaria de ter essa coragem em outros aspectos da vida).

Ao menos, dor é uma experiência absoluta, dispensa qualquer máscara, maquiagem ou pose, nos obriga a nos defrontarmos conosco e com ela, se faz espelho. Ela se impõe.

O sofrimento (mais que a dor física) faz parte da existência e quem jamais o experimenta padece de algum mal (no mínimo, indiferença diante da vida). Sofrer significa estar em contato com a realidade, que sentimos com o corpo e alma a tristeza de algumas perdas. É verdade que algumas vezes este estado de espírito não guarda relação com situações concretas (está nos olhos de quem o sente), mas o mundo também nos cobra uma certa alegria histérica.

Considero muita acertada a afirmação de Schopenhauer de que a vida é um turbilhão de desejos que nos condena ao sofrimento, mas sempre que passo por momentos dolorosos (físicos ou não) penso na máxima de Nietzsche de que o que não mata fortalece. É acalentador conferir um caráter teleológico ao sofrimento.

Em suma, depois de meia dúzia de pensamentos sem analgésicos e concluindo meu mea-culpa pela inércia do blog, sei que a maldita dor me lembra que estou viva e que (o martelo nietzscheano pode estar testando minhas certezas) concordo com a belíssima música de Caetano Veloso:

“Solidão apavora

Tudo demorando em ser tão ruim

A lágrima clara sobre apele escura

À noite a chuva que cai lá fora”

PS: O título do texto é um plágio descarado da frase de um amigo (que eu adoro repetir).

Dia desses, um cliente me disse no trabalho que eu não fui bem adestrada, ao que prontamente respondi: “Você também  não. Como eu sou paga para negociar com gente, o que pressupõe capacidade de compreensão e diálogo, o que não é o teu caso e, como  eu nunca tive vocação para veterinária, peço que você se retire.” Farpas à parte, é incrível o poder das palavras.

As palavras são mágicas, o sentido do mundo advém da linguagem instauradora do homem, criadora da consciência reflexiva do mundo. Pela palavra o mundo se faz, é um conceito humano, a ordenação intelectiva e orientadora da totalidade num esquema significativo. A totalidade dos signos constrange o pensamento e a linguagem é pulsante, dinâmica, passível de ressignificação que se dá por constrangimento a novas associações. Desta forma, por uma analogia com a psicanálise, o sujeito pode reviver situações originárias com outra interpretação, é a ab-reação; atribuição de novo significado a determinada experiência.  Pronto, daí a mágica está feita, feitiço é quando alguém assimila uma palavra que o transforma.

Não subestimemos as palavras, não sejamos ingênuos diante delas, em Além do Bem e do Mal, Nietszche já ensinava: “Cada filosofia esconde também uma filosofia, cada opinião é também um esconderijo, cada palavra é também uma máscara”.

É por esta lógica que funcionam no mundo do trabalho conceitos como equilíbrio emocional e excelência profissional, jogando para o trabalhador a responsabilidade por uma passividade bovina diante destas  situações insidiosas que afrontam sua dignidade. Desloca-se a atenção das situações objetivas, para a capacidade da vítima de suportá-las sem explodir (cada um que se imploda!).

Anormais não são aqueles que se anulam, e sim os que não se adequam. Essa ressignificação fere a coerência absoluta do sujeito, tem conseqüências psicológicas profundas, o gestual reprimido torna-se projeção, recalque, transcendência, daí a somatização, a LER, a depressão, a ansiedade.

Iuri Ramos descortina de forma brilhante a função lógica e ideológica dos Programas de Qualidade Total num contexto de reestruturação produtiva. Quero mostrar que, antes dos programas, até mesmo os conceitos servem para criar conformidade a aumentar a produtividade. As pessoas não recebem metas e sim desafios estimulantes.

Também por estes mecanismos, são introjetadas docilidade e disciplina, ocorre o condicionamento. O poder difuso reprime, recalca, cria indivíduos e realidades que, por serem produtos, funcionam como as correias foucaultianas de transmissão de poder.

Nesta relação poder-corpo, o trabalhador torna-se útil, obediente, irracional, uma forma vazia e aberta para padrões funcionais, projeções de estruturas mentais aperfeiçoadas ligadas à eficiência. O indivíduo vira um autômato.

Só agora entendi que o cliente não me ofendeu, elogiou e as palavras dele não me enfeitiçaram. Obrigada, concordo contigo, ilustre e prepotente desconhecido.

 

O julgamento

Estava eu visitando um blog do qual gosto muito (http://fabriciokc.wordpress.com/) e me deparei com um post sobre o caso Isabella, fui fazer um comentário e acabei escrevendo um texto. Todo mundo fala sobre o assunto e eu tava mesmo com uma vontade danada de dar uns pitacos, abaixo a (quase) transcrição de meu referido comentário.

Há semanas não se fala em outro assunto, o que é resultado da mistura de uma morte trágica, uma menininha linda, da necessidade de um escândalo semanal  e de um promotor que gosta de holofotes. Às vezes me pergunto quantas vezes a garotinha foi atirada pela janela.

É verdade que a morte provocada de uma criança comove, afronta valores morais compartidos, causa revolta, repulsa e que o jornalismo tem a função de informar. A questão é que o jornalismo está necessariamente vinculado à estética da realidade, da isenção, apresentação imparcial de fatos, delas irradia sua credibilidade. É isso que se vende, mas não é o que nós, expectadores e leitores, recebemos. É bem verdade que a neutralidade absoluta é um objetivo inatingível, todo recorte seleciona, toda fotografia depende da perspectiva assumida pelo fotógrafo, mas ainda assim é um fim a ser buscado, um princípio orientador.

Na prática, há sempre a passagem repetitiva de informações desencontradas e versões enviesadas, prevalecendo sempre a versão da promotoria nos casos jurídicos. Esquecem (ou omitem) que o inquérito é inquisitório por excelência, que os indiciados não têm direito de defesa nesta fase e que é no julgamento que a legítima defesa será garantida , lá é que a autoria e a culpa serão apuradas.

Assim mesmo, a mídia devassa, distorce e julga. Com a extrema repetição imagética, fomenta a comoção popular e manufatura a opinião pública (já que a experiência comunicativa midiática é unilateral). Aborda incansavelmente o mesmo tema porque este vende jornais, revistas e dá audiência e assim o é exatamente porque o assunto é exaustivamente apresentado, num ciclo de retro-alimentação.

A mídia faz o espetáculo e a totalidade da vida nele se converte, a linguagem vira mercadoria. Na expropriação da linguagem comunicativa, a vida prática é alienada e reificada, o mundo midiático (com seu apelo imagético) apaga as imagens cotidianas

As conseqüências são desastrosas: a mercantilização da informação, o descompromisso do jornalismo com a realidade, com a verdade, a pressão no desenrolar do inquérito e do processo acarretando erros primários e nulidades processuais, a interferência no julgamento e no livre convencimento, ainda mais nos crimes de competência do júri. Sempre nos são apresentados vilões (precisamos mais deles do que de heróis) Suzanas, Brenos e Nardornis porque estas histórias maniqueístas e açucaradas rendem. Não são seres humanos com paixões e densidade psicológica que matam, são monstros e isto nos dá uma sensação reconfortante: primeiro porque a desgraça alheia entretém, depois porque nos causa uma sensação deliciosa de superioridade. Todos queremos ser carrascos. Será que o sangue alheio purga nossos pecados?

Fiquei horrorizada ao ver na TV que dezenas de pessoas ficam em vigília em frente a delegacias e ao prédio dos acusados, lembrei da idéia de espetáculo de Guy Debord e Baudrillard: todos estavam visceralmente comovidos e engajados, ao mesmo tempo, expectadores e alheios à própria vida, numa postura de passividade e contemplação, indiferentes à própria existência e a dramas mais próximos e concretos. Quantas crianças são mortas todos os dias? Basta fazer uma vista ao Instituto Médico Legal para ver vários garotos imberbes mortos a tiros e meninas impúberes mortas a facadas.

O sensacionalismo do caso remonta a discussão feita por Marilena Chauí sobre Mídia e Democracia (eu acrescentaria Justiça). Mídia, imagem, simulacro e realidade.

Não uso relógio. Não quero que as pessoas me perguntem as horas (poucas coisas na vida me aborrecem mais do que isso) e observar a passagem do tempo me aflige.

Eu também nunca sei os roteiros dos ônibus, detesto dar informações, basta você dar uma brecha e as pessoas já tentam engatar um papo enfadonho que vai das condições meteorológicas ao trânsito. Sempre tento me sentar na cadeira do ônibus que não tem outra ao lado para diminuir a possibilidade de alguém tentar puxar conversa comigo (maldita seja a educação que meus pais me deram que me obriga a ser simpática e a prestar atenção nas pessoas mesmo em momentos de intensa chateação).

Não entendo essa necessidade quase pedinte de interação: basta eu estar entretida em meus pensamentos, no meu fabuloso mundo particular e aparece alguém para me afastar, me distrair com diálogos vazios, desinteressantes e contatos dispensáveis, me deixando extremamente entediada. Sempre acho que estou perdendo tempo: as pessoas me fazem perdê-lo, assim como a TV, livros ruins, aulas estúpidas, telefone e msn. O que me coloca em situações difíceis porque eu tendo a ser apressada, objetiva e pragmática no trato com as pessoas e elas geralmente entendem como impaciência, frieza e má-educação.

Minha percepção angustiante do tempo, da sucessão pavorosa de instantes, está intimamente vinculada a algumas peculiaridades da Pós-Modernidade. Na sociedade da informação, há a valorização do saber, sua identificação com poder, a superabundância factual contrastando com a capacidade cognitiva e de absorção limitadas, deixando o indivíduo atordoado, ansioso e com uma percepção da passagem do tempo muito singular. Soma-se a tal fenômeno a revolução na velocidade da informação gerada pela informática e outras tecnologias e a conseqüente supressão espaço-temporal.

Em paralelo a estes fenômenos, há o deslocamento do real apontado por Marc Augé acarretando o ego ficcional: há uma “realidade virtual” para a qual o sujeito pode transportar-se e que dispensa contatos efetivos com o contexto no qual está inserido. Daí minhas estratégias para evitar diálogo em ônibus podem ser explicadas e entendidas também pelo conceito de desencaixe e de desatenção civil de Giddens, ainda mais quando resolvo usar o mp4 (bendita invenção).

Depois de valer dos sofrimentos pós-modernos para justificar minha conduta, confesso que minha tática do relógio (da ausência dele) ficou obsoleta depois da popularização dos telefones móveis, as pessoas me perguntam as horas na expectativa de que eu tenha um aparelho celular… Preciso parar por aqui, acabo de perceber quanto tempo me escapou enquanto eu escrevia este texto.

foto: Roque Pinho

Escrever para mim é uma oportunidade de reflexão, de digerir fatos, de entender ou espantar velhos fantasmas, ao virar sujeito e objeto de meu voyerismo (você estar lendo meu texto é acidental). Desta forma, peço licença para ter aqui uma conversa que me devo há anos e será assim mesmo: eu sozinha no conforto do meu quarto, na segurança de meu espaço, na incerteza de que a mensagem chegará ao destinatário e deixando o leitor na dúvida se abordo um fato real, ficção ou ambas as coisas.

A., sei que teu aniversário está chegando, aquela história de que eu sempre esqueço a data e não sei ao certo não é verdadeira (como você pôde acreditar? Já nos conhecemos a quase uma década). Desculpe-me pelos anos de mentira, mas sempre achei tão bonitinho você me ligar “por acaso” já pertinho da hora da virada, sempre imaginei que fosse para me dar a oportunidade até o último momento de te ligar.

Lembrei que há alguns anos prometi que escreveria um texto para ti, creio que não bem assim que você o queria, mas gostaria de te convidar para dar uma olhadinha na nossa história (exatamente no fim) através da minha perspectiva.

Por alguns anos, não pronunciei teu nome, simplesmente não conseguia, me afastei de amigos em comum, mudei o número do telefone, joguei fora tudo o que me lembrava você (e eram tantas coisas), inclusive a blusa branca decotadíssima que você detestava (ato quase que in memoriam). Guardei o lencinho com as gotas do teu sangue, disso eu não podia me desfazer, eu ainda tenho medo de agulha e horror a sangue, então considero esta a minha preferida dentre todas as provas de amor absurdas que nos pedíamos, aliás não, você ter se mudado para Salvador por minha causa é insuperável!

Lembro com carinho do quanto éramos companheiros, amigos mesmo, do quanto nos bastávamos. Éramos absolutamente dependentes e eu adorava perceber que eu tinha de verdade tudo o que eu precisava (você!). Queríamos tanto um ao outro que nos engaiolamos, nos prendemos, viramos propriedade um do outro, com direito a todos os elementos da Teoria Savignyana da Posse: o contato material, domínio e o animus possidendi, o agir como proprietário. Acontece que pássaros engaiolados são tão tristes. Na alma não há gaiolas.

Você era tão ciumento, eu tão intransigente. Tínhamos concepções de mundo radicalmente antagônicas, mas o que eram posições político-ideológicas diante do modo como você andava, sorria. Ficamos enfeitiçados, virei escrava de teus olhos, de teu olhar, precisava deles só para mim. Ainda hoje não sei ao certo se o que me prendia eram teus olhos ou a minha imagem que eu via refletida neles.

Queríamos que durasse para sempre, e quem é que já não acreditou que duraria para sempre? Lutamos contra o fato mais inexorável da existência: a efemeridade. Não importa com que cuidado as pessoas façam seus planos ou a intensidade de seus desejos, as coisas acabam e negar essa premissa é construir a vida sobre bases não sólidas. Alguém já disse que viver é a arte de ir se despedindo…

O amor é insuportavelmente efêmero, é exatamente isso que os apaixonados não suportam, só contenta a paixão o que é eterno. Por isso as histórias de amor são tristes, elas sempre trazem a certeza do sofrimento, do fim.

Quero que você saiba que, apesar de todo o sofrimento que nos causamos, valeu a pena e que se eu pudesse reescrever a nossa história, não alteraria uma vírgula. A intensidade do que experimentamos dispensa qualquer escolha segura e racional de fugir do risco. Levei anos para entender isso.

Por muito tempo eu me perguntei qual seria o sentido do amor, uma vez que, ab initio, está fadado ao fracasso, nenhuma história de amor tem final feliz. Com o tempo percebi que existe sim a possibilidade de seu triunfo, só que ele não está na chegada, não é o final do caminho e sim a trajetória. Por isso, te proíbo de dizer que nós não demos certo, que caminho lindo que foi o nosso: cinco anos repletos de encontros, desencontros, aventuras e cumplicidade.

Este ano, como presente de aniversário, te deixo um breve recorte da nossa história (que ao havia relegado ao silêncio, proibido a menção) e o mais sincero desejo que você abandone qualquer rancor, mágoa ou culpa, que a vida te seja leve e que você saiba colori-la.

Sei que você questionará a validade de tudo que eu afirmei ao perguntar se outras pessoas não surgiram para diminuir tua importância na minha vida. Eis a resposta que reservo a ti: é claro que surgiram, em três anos muita coisa aconteceu, me encantei algumas vezes, me apaixonei (deve ter acontecido contigo também) e, a despeito disso, o que vivemos sempre fará parte de minha biografia, sempre o teremos em comum, é o nosso legado.

Taí, outras experiências afetivas dariam um bom tema para um texto, mas deixo para um outro momento de arroubo sentimentalóide de minha parte. Por agora me limito a repetir que “azar no amor, sorte no jogo” (gostaria de poder substituir a palavra jogo por concurso)… Será que alguém aí topa uma partida de poker?

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