abril 2008


Dia desses, um cliente me disse no trabalho que eu não fui bem adestrada, ao que prontamente respondi: “Você também não. Como eu sou paga para negociar com gente, o que pressupõe capacidade de compreensão e diálogo e como  eu nunca tive vocação para veterinária, peço que você se retire.” Farpas à parte, é incrível o poder das palavras.

As palavras são mágicas, o sentido do mundo advém da linguagem instauradora do homem, criadora da consciência reflexiva do mundo. Pela palavra o mundo se faz, é um conceito humano, a ordenação intelectiva e orientadora da totalidade num esquema significativo. A totalidade dos signos constrange o pensamento e a linguagem é pulsante, dinâmica, passível de ressignificação que se dá por constrangimento a novas associações. Desta forma, por uma analogia com a psicanálise, o sujeito pode reviver situações originárias com outra interpretação, é a ab-reação; atribuição de novo significado a determinada experiência.  Pronto, daí a mágica está feita, feitiço é quando alguém assimila uma palavra que o transforma.

Não subestimemos as palavras, não sejamos ingênuos diante delas, em Além do Bem e do Mal, Nietszche já ensinava: “Cada filosofia esconde também uma filosofia, cada opinião é também um esconderijo, cada palavra é também uma máscara”.

É por esta lógica que funcionam no mundo do trabalho conceitos como equilíbrio emocional e excelência profissional, jogando para o trabalhador a responsabilidade por uma passividade bovina diante destas  situações insidiosas que afrontam sua dignidade. Desloca-se a atenção das situações objetivas, para a capacidade da vítima de suportá-las sem explodir (cada um que se imploda!).

Anormais não são aqueles que se anulam, e sim os que não se adequam. Essa ressignificação fere a coerência absoluta do sujeito, tem conseqüências psicológicas profundas, o gestual reprimido torna-se projeção, recalque, transcendência, daí a somatização, a LER, a depressão, a ansiedade.

Iuri Ramos descortina de forma brilhante a função lógica e ideológica dos Programas de Qualidade Total num contexto de reestruturação produtiva. Quero mostrar que, antes dos programas, até mesmo os conceitos servem para criar conformidade a aumentar a produtividade. As pessoas não recebem metas e sim desafios estimulantes.

Também por estes mecanismos, são introjetadas docilidade e disciplina, ocorre o condicionamento. O poder difuso reprime, recalca, cria indivíduos e realidades que, por serem produtos, funcionam como as correias foucaultianas de transmissão de poder.

Nesta relação poder-corpo, o trabalhador torna-se útil, obediente, irracional, uma forma vazia e aberta para padrões funcionais, projeções de estruturas mentais aperfeiçoadas ligadas à eficiência. O indivíduo vira um autômato.

Só agora entendi que o cliente não me ofendeu, elogiou e as palavras dele não me enfeitiçaram. Obrigada, concordo contigo, ilustre e prepotente desconhecido.

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Estava eu visitando um blog do qual gosto muito (http://fabriciokc.wordpress.com/) e me deparei com um post sobre o caso Isabella, fui fazer um comentário e acabei escrevendo um texto. Todo mundo fala sobre o assunto e eu tava mesmo com uma vontade danada de dar uns pitacos, abaixo a (quase) transcrição de meu referido comentário.

Há semanas não se fala em outro assunto, o que é resultado da mistura de uma morte trágica, uma menininha linda, da necessidade de um escândalo semanal  e de um promotor que gosta de holofotes. Às vezes me pergunto quantas vezes a garotinha foi atirada pela janela.

É verdade que a morte provocada de uma criança comove, afronta valores morais compartidos, causa revolta, repulsa e que o jornalismo tem a função de informar. A questão é que o jornalismo está necessariamente vinculado à estética da realidade, da isenção, apresentação imparcial de fatos, delas irradia sua credibilidade. É isso que se vende, mas não é o que nós, expectadores e leitores, recebemos. É bem verdade que a neutralidade absoluta é um objetivo inatingível, todo recorte seleciona, toda fotografia depende da perspectiva assumida pelo fotógrafo, mas ainda assim é um fim a ser buscado, um princípio orientador.

Na prática, há sempre a passagem repetitiva de informações desencontradas e versões enviesadas, prevalecendo sempre a versão da promotoria nos casos jurídicos. Esquecem (ou omitem) que o inquérito é inquisitório por excelência, que os indiciados não têm direito de defesa nesta fase e que é no julgamento que a legítima defesa será garantida , lá é que a autoria e a culpa serão apuradas.

Assim mesmo, a mídia devassa, distorce e julga. Com a extrema repetição imagética, fomenta a comoção popular e manufatura a opinião pública (já que a experiência comunicativa midiática é unilateral). Aborda incansavelmente o mesmo tema porque este vende jornais, revistas e dá audiência e assim o é exatamente porque o assunto é exaustivamente apresentado, num ciclo de retro-alimentação.

A mídia faz o espetáculo e a totalidade da vida nele se converte, a linguagem vira mercadoria. Na expropriação da linguagem comunicativa, a vida prática é alienada e reificada, o mundo midiático (com seu apelo imagético) apaga as imagens cotidianas

As conseqüências são desastrosas: a mercantilização da informação, o descompromisso do jornalismo com a realidade, com a verdade, a pressão no desenrolar do inquérito e do processo acarretando erros primários e nulidades processuais, a interferência no julgamento e no livre convencimento, ainda mais nos crimes de competência do júri. Sempre nos são apresentados vilões (precisamos mais deles do que de heróis) Suzanas, Brenos e Nardornis porque estas histórias maniqueístas e açucaradas rendem. Não são seres humanos com paixões e densidade psicológica que matam, são monstros e isto nos dá uma sensação reconfortante: primeiro porque a desgraça alheia entretém, depois porque nos causa uma sensação deliciosa de superioridade. Todos queremos ser carrascos. Será que o sangue alheio purga nossos pecados?

Fiquei horrorizada ao ver na TV que dezenas de pessoas ficam em vigília em frente a delegacias e ao prédio dos acusados, lembrei da idéia de espetáculo de Guy Debord e Baudrillard: todos estavam visceralmente comovidos e engajados, ao mesmo tempo, expectadores e alheios à própria vida, numa postura de passividade e contemplação, indiferentes à própria existência e a dramas mais próximos e concretos. Quantas crianças são mortas todos os dias? Basta fazer uma vista ao Instituto Médico Legal para ver vários garotos imberbes mortos a tiros e meninas impúberes mortas a facadas.

O sensacionalismo do caso remonta a discussão feita por Marilena Chauí sobre Mídia e Democracia (eu acrescentaria Justiça). Mídia, imagem, simulacro e realidade.

Não uso relógio. Não quero que as pessoas me perguntem as horas (poucas coisas na vida me aborrecem mais do que isso) e observar a passagem do tempo me aflige.

Eu também nunca sei os roteiros dos ônibus, detesto dar informações, basta você dar uma brecha e as pessoas já tentam engatar um papo enfadonho que vai das condições meteorológicas ao trânsito. Sempre tento me sentar na cadeira do ônibus que não tem outra ao lado para diminuir a possibilidade de alguém tentar puxar conversa comigo (maldita seja a educação que meus pais me deram que me obriga a ser simpática e a prestar atenção nas pessoas mesmo em momentos de intensa chateação).

Não entendo essa necessidade quase pedinte de interação: basta eu estar entretida em meus pensamentos, no meu fabuloso mundo particular e aparece alguém para me afastar, me distrair com diálogos vazios, desinteressantes e contatos dispensáveis, me deixando extremamente entediada. Sempre acho que estou perdendo tempo: as pessoas me fazem perdê-lo, assim como a TV, livros ruins, aulas estúpidas, telefone e msn. O que me coloca em situações difíceis porque eu tendo a ser apressada, objetiva e pragmática no trato com as pessoas e elas geralmente entendem como impaciência, frieza e má-educação.

Minha percepção angustiante do tempo, da sucessão pavorosa de instantes, está intimamente vinculada a algumas peculiaridades da Pós-Modernidade. Na sociedade da informação, há a valorização do saber, sua identificação com poder, a superabundância factual contrastando com a capacidade cognitiva e de absorção limitadas, deixando o indivíduo atordoado, ansioso e com uma percepção da passagem do tempo muito singular. Soma-se a tal fenômeno a revolução na velocidade da informação gerada pela informática e outras tecnologias e a conseqüente supressão espaço-temporal.

Em paralelo a estes fenômenos, há o deslocamento do real apontado por Marc Augé acarretando o ego ficcional: há uma “realidade virtual” para a qual o sujeito pode transportar-se e que dispensa contatos efetivos com o contexto no qual está inserido. Daí minhas estratégias para evitar diálogo em ônibus podem ser explicadas e entendidas também pelo conceito de desencaixe e de desatenção civil de Giddens, ainda mais quando resolvo usar o mp4 (bendita invenção).

Depois de valer dos sofrimentos pós-modernos para justificar minha conduta, confesso que minha tática do relógio (da ausência dele) ficou obsoleta depois da popularização dos telefones móveis, as pessoas me perguntam as horas na expectativa de que eu tenha um aparelho celular… Preciso parar por aqui, acabo de perceber quanto tempo me escapou enquanto eu escrevia este texto.

 

foto: Roque Pinho

Escrever para mim é uma oportunidade de reflexão, de digerir fatos, de entender ou espantar velhos fantasmas, ao virar sujeito e objeto de meu voyerismo (você estar lendo meu texto é acidental). Desta forma, peço licença para ter aqui uma conversa que me devo há anos e será assim mesmo: eu sozinha no conforto do meu quarto, na segurança de meu espaço, na incerteza de que a mensagem chegará ao destinatário e deixando o leitor na dúvida se abordo um fato real, ficção ou ambas as coisas.

A., sei que teu aniversário está chegando, aquela história de que eu sempre esqueço a data e não sei ao certo não é verdadeira (como você pôde acreditar? Já nos conhecemos a quase uma década). Desculpe-me pelos anos de mentira, mas sempre achei tão bonitinho você me ligar “por acaso” já pertinho da hora da virada, sempre imaginei que fosse para me dar a oportunidade até o último momento de te ligar.

Lembrei que há alguns anos prometi que escreveria um texto para ti, creio que não bem assim que você o queria, mas gostaria de te convidar para dar uma olhadinha na nossa história (exatamente no fim) através da minha perspectiva.

Por alguns anos, não pronunciei teu nome, simplesmente não conseguia, me afastei de amigos em comum, mudei o número do telefone, joguei fora tudo o que me lembrava você (e eram tantas coisas), inclusive a blusa branca decotadíssima que você detestava (ato quase que in memoriam). Guardei o lencinho com as gotas do teu sangue, disso eu não podia me desfazer, eu ainda tenho medo de agulha e horror a sangue, então considero esta a minha preferida dentre todas as provas de amor absurdas que nos pedíamos, aliás não, você ter se mudado para Salvador por minha causa é insuperável!

Lembro com carinho do quanto éramos companheiros, amigos mesmo, do quanto nos bastávamos. Éramos absolutamente dependentes e eu adorava perceber que eu tinha de verdade tudo o que eu precisava (você!). Queríamos tanto um ao outro que nos engaiolamos, nos prendemos, viramos propriedade um do outro, com direito a todos os elementos da Teoria Savignyana da Posse: o contato material, domínio e o animus possidendi, o agir como proprietário. Acontece que pássaros engaiolados são tão tristes. Na alma não há gaiolas.

Você era tão ciumento, eu tão intransigente. Tínhamos concepções de mundo radicalmente antagônicas, mas o que eram posições político-ideológicas diante do modo como você andava, sorria. Ficamos enfeitiçados, virei escrava de teus olhos, de teu olhar, precisava deles só para mim. Ainda hoje não sei ao certo se o que me prendia eram teus olhos ou a minha imagem que eu via refletida neles.

Queríamos que durasse para sempre, e quem é que já não acreditou que duraria para sempre? Lutamos contra o fato mais inexorável da existência: a efemeridade. Não importa com que cuidado as pessoas façam seus planos ou a intensidade de seus desejos, as coisas acabam e negar essa premissa é construir a vida sobre bases não sólidas. Alguém já disse que viver é a arte de ir se despedindo…

O amor é insuportavelmente efêmero, é exatamente isso que os apaixonados não suportam, só contenta a paixão o que é eterno. Por isso as histórias de amor são tristes, elas sempre trazem a certeza do sofrimento, do fim.

Quero que você saiba que, apesar de todo o sofrimento que nos causamos, valeu a pena e que se eu pudesse reescrever a nossa história, não alteraria uma vírgula. A intensidade do que experimentamos dispensa qualquer escolha segura e racional de fugir do risco. Levei anos para entender isso.

Por muito tempo eu me perguntei qual seria o sentido do amor, uma vez que, ab initio, está fadado ao fracasso, nenhuma história de amor tem final feliz. Com o tempo percebi que existe sim a possibilidade de seu triunfo, só que ele não está na chegada, não é o final do caminho e sim a trajetória. Por isso, te proíbo de dizer que nós não demos certo, que caminho lindo que foi o nosso: cinco anos repletos de encontros, desencontros, aventuras e cumplicidade.

Este ano, como presente de aniversário, te deixo um breve recorte da nossa história (que ao havia relegado ao silêncio, proibido a menção) e o mais sincero desejo que você abandone qualquer rancor, mágoa ou culpa, que a vida te seja leve e que você saiba colori-la.

Sei que você questionará a validade de tudo que eu afirmei ao perguntar se outras pessoas não surgiram para diminuir tua importância na minha vida. Eis a resposta que reservo a ti: é claro que surgiram, em três anos muita coisa aconteceu, me encantei algumas vezes, me apaixonei (deve ter acontecido contigo também) e, a despeito disso, o que vivemos sempre fará parte de minha biografia, sempre o teremos em comum, é o nosso legado.

Taí, outras experiências afetivas dariam um bom tema para um texto, mas deixo para um outro momento de arroubo sentimentalóide de minha parte. Por agora me limito a repetir que “azar no amor, sorte no jogo” (gostaria de poder substituir a palavra jogo por concurso)… Será que alguém aí topa uma partida de poker?

 

 

Numa dessas tardes de apatia e consumismo, fui ao shopping com algumas amigas e presenciei uma situação que me fez desviar a atenção dos do papo entusiasmado sobre sapatos e bolsas: um menino negro com roupas maltrapilhas foi abordado truculentamente por um policial, revistado (sem que nada tenha sido encontrado) e “convidado a se retirar”. O contraste entre a aparência do menino e a paisagem era muito nítido: a bermuda velha e encardida do menino destoava da harmonia asséptica das vitrines. O menino estava sujo e não estava no local adequado, ainda mais em tempos em que a dignidade humana e a cidadania são confundidas com a capacidade de consumo.

Um dos significados da palavra sujeira é: aquilo que não está em seu devido lugar. O atributo de sujo não é intrínseco a um objeto e sim um conceito relacional vinculado a uma configuração idealizada. Ocorre que toda ordem gera sua sujeira, seus estranhos e indesejáveis (o refugo humano) e que há coisas e pessoas para as quais o “lugar certo” não foi reservado: o modelo de pureza preconizado por alguns não comporta a convivência com o refugo, é necessário, no mínimo, afastá-lo do campo de visão, lança-los em periferias, asilos, manicômios e prisões.

Neste contexto de criação de imagem desses outros, surge o Direito Penal do Inimigo, que visa não apenas punir delinqüentes, mas afastar – através da vingança – estes sujeitos responsáveis por experiências negativas e pela sensação de repulsa, aparece também a face punitiva e repressora do Estado (via mecanismos de ações legítimos e ilegítimos) servindo para efetivara exclusão. Há uma face oculta no discurso autorizado.

Na passagem para a Pós-Modernidade, a busca pela pureza deslocou-se da ação punitiva contra classes perigosas e passou a expressar-se diariamente com ações contra moradores de bairros populares, vagabundos e maltrapilhos, os suspeitos. Há, portanto, grupos que carregam os estigmas da suspeita, da culpa e da intimidação permanentes: desfavorecidos são vistos como potencialmente violentos e perigosos, deixam de ser caso de política e viram caso de polícia.

Como afirmado anteriormente, nesta dinâmica, o Direito Penal por vezes confere o arcabouço necessário a esta estrutura (ao mesmo tempo em que a reflete num mecanismo de retroalimentação) através de uma perspectiva teórica inquisitória que legitima ações violentas, seja partindo de agentes autorizados estatais, seja de particulares embebecidos pela lógica dominante.

A lógica punitiva aparece muito antes de surgir uma situação-problema, muitas vezes ela cala, esconde e disfarça preconceitos. Encontra-se disseminada no cotidiano fomentando pequenos fascismos (de ranço lombrosiano), ampliando sua faceta intolerante por meio de respostas legais ao crescente clamor por mais punições e aprisionamentos, se omitindo diante das chacinas e execuções.

Esta dinâmica instala-se, segundo a moral, em lares venerados e barracos desrespeitados, alimentando os corredores limpos e engravatados dos Tribunais, a sujeira e os remendos de prisões tão rotas quanto as roupas do menino no shopping.