maio 2008


Já tive experiências deliciosas com o silêncio, o contato comigo, meus pensamentos e dúvidas, com a solidão (por vezes) necessária, absoluta e revigorante. Já passei também por situações medonhas com ele. Quem nunca provou uma situação na qual um silêncio constrangedor se instala e conduz a uma tentativa desesperada de preencher o vazio da compainha com palavras frívolas?

Li em algum lugar que um bom teste para descobrir o grau de intimidade que temos com alguém é deixar que o silêncio se instale, se surgir um desconforto, digamos que não há um vínculo muito estreito. Se a compainha para se perfazer não puder prescindir das palavras, ela é efetiva? Amigos viscerais, cúmplices e amantes sabem o quanto o silêncio entre eles pode ser maravilhoso.

O silêncio pode ter vários significados e efeitos: ele acalenta, afaga, convida, repele, omite, aniquila, exprime compreensão ou indiferença. Costumo relegar algumas pessoas e assuntos ao silêncio, ao menos enquanto não consigo lançá-los à indiferença. A Psicanálise já ensinou que as pessoas podem ser muito mais o que calam do que o que falam, existem segredos que nem sabemos que calamos.

Retornando à experiência terrível de quebrar com as palavras o silêncio, creio que tentamos destroçá-lo para esfacelar o que ele significa, a solidão; daí, usamos o outro ou o diálogo como muletas. Ocorre que a sensação de solidão guarda pouca relação com a presença de outrem, aliás, “solidão acompanhada” é a mais triste.

Um amigo me disse que não há nada de errado em dizer o óbvio, por isso eu gostaria de dividir essa grande descoberta: o silêncio desconcerta e nos remete à solidão existencial, independente do fato de haver alguém por perto. Talvez seja por isso que eu gosto de ouvir música muito alto, para não ouvir os sussuros do silêncio.

Agora vos convido a realizar o teste do silêncio.

O caos se instala em Salvador quando chove. Há algumas semanas fiquei o quíntuplo do tempo médio para fazer o percurso da casa para a faculdade, mas foi agradável porque encontrei um colega e tivemos um diálogo interessante.

Conheço o moço há um bom tempo e sempre soube que temos interesse acadêmico pelos mesmos objetos (violência e criminalidade), mas eu nunca havia conseguido prestar atenção no que ele fala, aliás, esse é um problema que eu tenho em relação a homens muito bonitos: diante de tantos atributos, eu não consigo me concentrar no que falam. É verdade que o guri em questão é meio haribô, mas no dia em que ele descobrir o caminho do shopping…

O gajo trabalha no Complexo Penitenciário e tem sido um expectador privilegiado da rotina carcerária, desde a preferência por Mizunos até a existência do Comando, as drogas, o seguro, os fardas-azuis, a solidariedade, o embrutecimento, a banalização da vida, da violência e da morte, o rompimento com a moral (Übermesch?), a solidariedade, os mecanismo de poder e de sobrevivência.

Chama sua atenção (assim como a minha) as regras informais que moldam o funcionamento das instituições penais e o fato de que provavelmente as mesmas só funcionam pela existência delas. É óbvio que a Lei de Execuções Penais não esgota as possibilidades da experiência punitiva, a realidade não se subsume perfeitamente à norma positiva, mas o que acontece é o oposto do dever ser estabelecido pela dogmática do Direito.

A prisão mostra-se incapaz de corrigir, socializar e prevenir. O infrator é menos importante que as organizações prisionais que coordenam o tráfico, empregos internos, benefícios, relações com parentes, consolidam um fluxo dilatado de conexões com a sociedade livre, a segurança, o poder. Não se pretende devolver o sujeito ressocializado, se negociam sentenças, saída de internos, entrada de objetos.

Há ainda a truculência, a violência legitimada pelo Estado e o fato de grande parcela da sociedade perceber os Direitos Humanos como privilégio de bandidos e os internos/devedores transformam-se de sujeitos em objetos da punição, devendo lhes ser inflingida dor e humilhação a título de jus puniendi para que as contas sejam equilibradas.

O meu amigo também compartilha comigo de uma percepção crítica acerca da lógica e da seletividade sócio-política do sistema prisional e da ineficiência das prisões. Ele é uma recusa, apesar de conhecer a dinâmica institucional, a lógica da proprina e da permissividade, se nega a entrar no jogo. Nada de receber um “agrado” para permitir o fluxo de celulares, de recuar diante de ameaças ou fazer vista grossa para as xuxas, nada de ser conivente com colega que não quer levar o detento para a assistência médica ou que acha que o cacetete melhora a síndrome de abstinência de crack que alguns internos apresentam.

Ele é menino muito convicto, com um brilho intenso nos olhos, cheio de ideologia, princípios, valores e é portador de uma ingenuidade deliciosa, crê que sua ação no micro-espaço cotidiano é o ponto de partida para uma revolução radical no sistema.

O garoto não entende que a corrupção é sistêmica e que ser dissidente o expõe a um risco iminente: a represália que o aguarda é inexorável, seja de colegas prejudicados pela sua retidão de caráter, seja de internos sedentos de regalias contra legem. Não é possível sair ileso desta experiência, há uma tensão muito grande no presídio e os princípios orientadores são a corrupção e a truculência.

É lamentável perceber que a desonestidade está tão arraigada que condutas louváveis como a do guri não causam esperança e sim preocupação. Ao me despedir dele me flagrei (em contradição com meu ceticismo) pedindo que forças sobrenaturais o protegessem e que ele arrumasse um novo emprego.

Escrevi este texto para pedir a vocês que incluam o guapo em vossas orações, é que, como sou atéia, Deus jamais me atenderia.

quadro de Frida Khalo

Há dias não escrevo uma linha e gostaria de me explicar (e encher lingüiça) antes que as pessoas percam interesse pelo blog. Tive uma contusão na mão direita e por prescrição médica, devo evitar escrever ou digitar por um tempo.

Uma amiga fez um comentário a um texto e disse que jamais utilizaria este espaço para se lamentar. Azar o dela! Eu o farei. As situações mais patéticas e absurdas acontecem comigo corriqueiramente: é a blusa tomara-que-caia caindo dentro do ônibus; é o esbarrão num poste durante o flerte com o carinha que passa pelo outro lado da rua; acordar às 5:30 hs e chegar tarde na aula; perder a promoção da M. Officer; é ainda não ter caçado um marido rico aos 23 anos; Não é à toa que na minha família quando alguém tem um dia difícil, usamos a expressão “ dia de Marcela”.

Para piorar, a sortuda aqui tá sentindo uma dor desgraçada e tem alergia à maioria dos analgésicos, os que restam causam sonolência, sobrecarregam os rins e só podem ser usados a curtíssimos prazos. Depois de uma análise de custos/benefícios, conclui-se que mais interessante é agüentar a dor sem paliativos (hehehe, eu tinha que dar um jeito de usar a Teoria da Escolha Racional).

É uma terrível ironia o fato de eu ter como opção mais racional suportar a dor; isso porque o pensamento humano tende a evitá-la e a maximizar as possibilidades de prazer; sem cair numa simplificação hedonista, tendemos a evitar o sofrimento e buscar algo parecido com a felicidade. Para mim, nada de evitar, fugir ou negar, só me resta suportar a realidade da dor (gostaria de ter essa coragem em outros aspectos da vida).

Ao menos, dor é uma experiência absoluta, dispensa qualquer máscara, maquiagem ou pose, nos obriga a nos defrontarmos conosco e com ela, se faz espelho. Ela se impõe.

O sofrimento (mais que a dor física) faz parte da existência e quem jamais o experimenta padece de algum mal (no mínimo, indiferença diante da vida). Sofrer significa estar em contato com a realidade, que sentimos com o corpo e alma a tristeza de algumas perdas. É verdade que algumas vezes este estado de espírito não guarda relação com situações concretas (está nos olhos de quem o sente), mas o mundo também nos cobra uma certa alegria histérica.

Considero muita acertada a afirmação de Schopenhauer de que a vida é um turbilhão de desejos que nos condena ao sofrimento, mas sempre que passo por momentos dolorosos (físicos ou não) penso na máxima de Nietzsche de que o que não mata fortalece. É acalentador conferir um caráter teleológico ao sofrimento.

Em suma, depois de meia dúzia de pensamentos sem analgésicos e concluindo meu mea-culpa pela inércia do blog, sei que a maldita dor me lembra que estou viva e que (o martelo nietzscheano pode estar testando minhas certezas) concordo com a belíssima música de Caetano Veloso:

“Solidão apavora

Tudo demorando em ser tão ruim

A lágrima clara sobre apele escura

À noite a chuva que cai lá fora”

PS: O título do texto é um plágio descarado da frase de um amigo (que eu adoro repetir).