Salvador Dalâ width=

Li, recentemente, O Barco Ébrio de Arthur Rimbaud. Já havia lido dele Uma temporada no Inferno, livro que repousa na cabeceira de minha cama, assim como outros com os quais tenho uma relação tátil; Notas do Subterrâneo, O Aleph, A Construção, Assim falava Zaratustra e um livreto de Fernando Pessoa (tem meus poemas favorito, Tabacaria e Lisboa revisitada).

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Não há como descolar o fulgor poético da biografia do poeta: sua precocidade (escreveu Le bateu ivre aos 17 anos e aos 21 parou de escrever), sua autenticidade, sua vida errante, rebelde, intensa e boemia. Talvez por isso, Paul Verlaine, seu companheiro de Literatura e de cama, afirmou que “Rimbaud teve uma vida inimitável”.

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Seus textos estão repletos de imagens paradoxais [por vezes sombrias], desespero, vigor e fúria. São, simplesmente, viscerais e indóceis.

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Suas obras me provocam vertigem. Li em algum lugar que “só é capaz de amar quem tem coragem de perder o prumo”. Creio que, em verdade, só é possível experimentar a intensidade ao se permitir o risco, o abismo, o descontrole, por isso o barco de Rimbaud é errante, bêbado (belíssima metáfora).

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Só lamento não saber francês e perder as rimas, o que é inexorável numa tradução.

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Tive dificuldade em selecionar minhas passagens favoritas, fragmentos que exprimissem a essência da poética rimbaudiana. Foi uma tentativa interessante (mas mera tentativa) sempre o é.

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Uma Temporada no Inferno:

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[Mau sangue]

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Detesto todos os ofícios. Chefes e operários, todos campônios, ignóbeis. A mão na pena vale a mão no arado. – Que século de mãos! Não darei nunca a minha. Depois, ser doméstico leva longe demais. A honestidade de mendigar me aflige. Os criminosos repugnam como os castrados: eu estou intacto, e para mim é o mesmo.

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A gente não parte, retoma o caminho. E carregando meu vício, o vício lançou raízes de dor ao meu lado desde a idade da razão, e sobe ao céu, me bate, me derruba, me arrasta.

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A última inocência e a última timidez. Está dito. Não levar ao mundo meus dissabores e minhas traições.

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O Barco ébrio

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Quase ilha, a sacudir de meus bordos as querelas

E pássaros ladradores com olhos louros.

E eu vogava, quando através das cordagens fracas

Os afogados a dormir desciam aos recuos.

(…)

Mas, é verdade, muito chorei! Auroras são cruciantes,

Toda lua é impiedosa e todo sol amargo:

O áspero amor me embebeu em sonos embriagantes,

Que minha quilha estale! Que eu me faça ao mar!