Tela de R. Magritte

Tela de R. Magritte

Comprei Amor Líquido de Zygmunt Bauman para presentear a um affair, mas gosto tanto do autor que não resisti à tentação de ler antes de entregar. Por ironia do destino, antes que eu chegasse ao meio do texto, o caso acabou e eu aprendi a lição: da próxima vez compro um livro pocket.


Este livro trata exatamente da efemeridade e descartabilidade das relações pós-modernas: os relacionamentos são curtos, frágeis e não duram mais que a conveniência, pautados no pragmatismo e em uma certa impessoalidade.


A Modernidade Líquida é marcada pelo ritmo acelerado das mudanças e da vida, a compressão espaço-temporal, o encolhimento do planeta com o desenvolvimento dos meios de transporte e comunicação, a superabundância factual e a exponenciação das possibilidades de encontros. Em suma: tua rede de contatos pode ser amplíssima e você pode conhecer milhares de pessoas interessantes, inclusive em outros continentes. Há tanto a experimentar…


Na contemporaneidade, pairam ainda o relativismo moral e cultural, o individualismo, o alto investimento na liberdade. Embora ocorra a massificação, há uma percepção peculiar do outro, da coletividade e a noção de cidadão é substituída pela de indivíduo.


Guy Debord não escreveu sobre o amor, mas afirmou que as relações mercantis se estenderam para a totalidade da vida cotidiana. A ambigüidade é intrínseca à relação afetiva pós-moderna, primeiro, a própria incerteza de sua existência enquanto tal, também não há SIM nem NÃO: estar de forma plena com uma pessoa determinada implica numa recusa a uma infinidade de possibilidades (e quantas existem no mercado!!). Por outro lado, é necessário não descartar essa determinada pessoa como alternativa, ao menos enquanto não haja outra mais instigante (se bem não precisam ser alternativas excludentes).


Assim, as pessoas ficam, mas não estão e não devem expor muito esse tênue vínculo em sua vitrine porque poderia afugentar possíveis outros interessados. Há um jogo de esconde-revela interessante nas relações que é mais notório nas amorosas porque estas, geralmente, pressupõem exclusidade (ou sua impressão, simulação), pessoalidade e singularidade.


Óbvio que o tipo de relação em comento não esgota a realidade. É apenas um fenômeno que se destaca e, talvez por isso, tenham um significado peculiar outros tipos de relacionamento e seus vestígios evidentes: depoimentos, tatuagens, alianças, declarações, serenatas, enfim demonstrações públicas de afeto. Um exemplo detestável são os carros de som que fazem aos quatro ventos declarações românticas.

Estes exemplos significam a afirmação da existência de um vínculo afetivo (ou de uma intenção) a todo um público para dizer ao outro que não importa que, ao fazê-lo, sejam anuladas outras possibilidades.

Afirma-se o afeto na medida em que se dá ao outro mais que a mensagem em si: o espetáculo do afeto ampla e irrevogavelmente proclamado, tornado público, assim como a proximidade e a singularidade. Como escreveu Orwell: “o meio é a mensagem”.


Dedico este texto a A., na esperança de que isto me exima de aparecer na TV e de pagar por um dos malditos carros de som de mensagens. Claro que o faço na expectativa de que, ao postar este texto, a mensagem e o meio ainda conservem o sentido.

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