fevereiro 2010


A persistência da memória- tela de Salvador Dalí

Minha relação com o tempo é muito peculiar, tenho a sensação de  que ele me consome, devora meus vínculos, destroça os sentimentos.  Sou aflita, ansiosa, hiperativa: talvez seja o medo da morte, talvez seja o medo da vida. Outra coisa que freqüentemente me toma horas do dia (e da noite) é pensar sobre recordações e esquecimento, necessidade e desejo. Tenho problemas de memória: esqueço nomes, rostos, fatos, eventos…  Volta e meia alguém me pergunta se esquecer  é um problema, sempre  respondo que é uma solução.

Há poucos posts atrás, escrevi:

É engraçado o apego desesperado que temos a fatos do passado e a nossa recusa em aceitá-los enquanto tais, seja um amor perdido, seja um amigo que já não compartilha conosco ideais ou convivência. A forma como protegemos nossas recordações, construímos relicários e não nos libertamos de pessoas, padrões ou conceitos (por mais caducos que sejam) nos faz carregar muito peso; lembranças, mágoas, rancores, remorsos que não apenas implicam em sofrimento como nos distrai do presente.

É preciso viver de forma intensa e altiva o que a vida nos trouxer ou os labirintos que desenhamos sem nos perder nas lamentações, ressentimentos, piedade de si ou saudosismo, se recusar a viver nos paraísos perdidos ou das miragens de outrora, sem perder o sono e o equilíbrio pelos fantasmas do pretérito. Verdade que a capacidade de lembrar nos faz humanos, mas desconfio que não entendemos ainda a importância de esquecer… (Minha Bolsa de Mão- Marcela Isis)

Tava pensando num lindo filme chamado O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças hoje e  foi um boa surpresa abrir a um livro Hesse e encontrar nele a minha aflição. Segue abaixo a citação e outras de quem também conhece/conhecia o real significado do esquecimento:

“Toda a história do mundo não é mais que um livro de imagens refletindo o mais violento e mais cego dos desejos humanos: o desejo de esquecer.” Hermann Hesse.

“Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram maior proveito dos equívocos.” Friederich Nietzsche.

“Eis a nossa sina:  esquecer para ter passado, mentir para ter futuro.” Mia Couto,

Anteontem, numa festa de bota-fora de um prezado amigo (que me ensinou o valor da cultura popular), conheci a um jovem psicólogo que me indicou, em meio ao bom som da  Banda  Panos e Mangas e a uma conversa sobre cinema, o filme Die Welle ( A Onda).

Tenho prestado atenção no cinema alemão e me encantado com filmes como The Edukators e Das Experiment. Fiquei tão empolgada que, quando cheguei à minha casa às  3:00 hs da manhã, fui tentar baixar o filme (óbvio que não consegui, já que não sou extamente um gênio da informática).

Embora ambientado na Berlim contemporânea, o filme, do diretor Dennis Gansel, baseia-se num episódio real que aconteceu nos EUA, em 1967 com o professor Todd Strasser. Desconcertante é o fato de que poderia ter acontecido em qualquer lugar.

O professor Rainer Wenger, acostumado a trabalhar com a matéria Anarquismo,  se vê obrigado a lecionar Autocracia num dado semestre. No primeiro dia de aula, ao provocar os alunos sobre o tema, eles respondem de forma apática, consideram o tema óbvio, esgotado e anacrônico.

O alunado é uma amostra da juventude típica de uma sociedade que atomiza, de uma geração individualista em um mundo competitivo, que preza marcas e status e que “não tem pelo que lutar, o assunto mais procurado no Google é a Paris Hilton”. Logo, eles rechaçam a possibilidade de ressurgimento de sistemas totalitários e excludentes.

Rainer propõe uma experiência durante uma semana: ele seria o líder absoluto (conforme escolha dos alunos) e estabelece uma série de mudanças: o lugar onde cada um deveria sentar-se, a forma de falar, expulsa os discordantes. O processo continua: eles passam a ter uma farda, um símbolo, uma saudação e, de repente, estão marchando na sala de aula, obedecendo fervorosamente às ordens do carismático líder.

A experiência muda as vidas dos envolvidos, aplaca suas demandas, preenche seus vazios, ganha notoriedade, atrai perplexidade. Não é mais apenas  uma experiência pedagógica.

Eles se autodenominaram A Onda e tornam-se um grupo coeso, fechado, que se protege e exclui dissidentes. Da associação, do sentimento de identidade, grupo e pertencimento, passam à intolerância e, os extremistas, beiram o fanatismo.

O filme desnuda como a manipulação de grupos é simples e possível, ainda mais através da ação participativa, da disciplina e do carisma. Tema que, se não é novo, não é anacrônico e é uma metáfora que se aplica muito bem à psicologia das massas e à servidão voluntária: seja na Alemanha nazista, na Itália fascista, no período stalinista, no Ku Klux Klan, no Baden Meinhoff, nos governos neo-populistas sul-americanos. E, ao menos em se tratando do efeito manada e na capacidade de fazer absurdos, nas torcidas de futebol, nos linchamentos causados por comoção popular, no caso da UNIBAN…

No filme, as coisas saem do controle e o professor desmascara a ideologia autoritária dos jovens (que se supunham vacinados):

Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em “A onda’. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho”.

Na vida real, nem sempre há alguém desmascarando a manipulação e a intolerância que se  escondem atrás  de palavras bonitas  como justiça, união, superioridade, raça, padrão,  grupo, partido, normal, bem comum, moral e com as  quais estamos (irracional e) visceralmente envolvidos. Raramente há alguém “de dentro” convidando-convocando à auto-crítica ou ouvidos dispostos a escutar e refletir, ao invés de reprimir imediatamente a discordância…

Ao moço que me indicou, obrigada, realmente é um filme estimulante. Como minha memória me prega peças, não consigo lembrar teu nome, mas, se um dia você ler a este post, espero que se dê conta de que, em menos de  24 hs, eu assisti à tua indicação.

Desde que saí de Salvador, com poucos amigos e muitos conhecidos no ônibus, sabia que não regressaria a mesma. Tinha certeza de que a distância de casa, da família, dos amigos, a convivência com pessoas e paisagens diferentes me alterariam de alguma forma.

Dias de estrada, situações inusitadas, esdrúxulas, diálogos, chiliques e, aos poucos, os desconhecidos de outrora se tornavam parceiros de jornada, companheiros, amigos de infância. Queríamos entender e olhar e o fizemos juntos, gritamos, passeamos, brigamos, nos divertimos, cuidamos uns dos outros. Aprendemos com a diversidade, praticamos a paciência, a alteridade, a cooperação, a tolerância.

Com pessoas de áreas de estudo diferentes, cresci muito intelectualmente: engenheiros, médico, jornalistas, mestres, doutorandos, historiador, arquiteto, cineasta, fotógrafa, designer, especialistas em relações internacionais, mas esse aprendizado não se compara com outro verdadeiramente indelevével: experimentar o mundo por estes olhares diferentes, estes mundo diferentes (e como eram díspares, enriquecedores, únicos).

Passei muito tempo olhando para fora, mais ainda olhando para dentro.  Aprendi a ouvir o outro, a me importar, a ser menos egoísta e pragmática, a brigar pelas minhas opiniões mantendo o respeito pelos discordantes, a dialogar, ao invés de  debater, a estar aberta ao convencimento.

Vivi momentos de fome, angústia, exaustão, mas também momentos intensos, insanos e felizes. Aprendi a valorizar a presença e o bem estar de quem estava ao lado, oferecendo cobertor,  falando besteiras, comentando, distribuindo biscoitos, perguntando se eu almocei direito, simplesmente dividindo, convivendo.

Na hora de voltar para casa (por motivos de saúde e no meio da viagem), percebi que retornar era tudo o que eu não queria e como seria doloroso abandonar a Iniciativa e os novos amigos, principalmente alguém especial, desconcertante e autêntico, com quem dividi confidências, músicas, conselhos, angústias, risadas, moedas, maluquices, frio, fernê, pisco, caminhos, cerveja, água, farras, desabafos, cigarros…

Se os hábitos permanecem, os desejos não. Dei-me conta de que sou do mundo, que nessa viagem-processo mudei, já não prezo a vida que eu queria, os valores que carregava, que não quero mais as mesmas presenças. A verdadeira viagem para mim não foi a mudança das paisagens, foi a mudança de olhar.

Entendi que preciso me jogar nessa vida, preciso de liberdade e novidade e que, se tenho raízes firmes, elas já não me prendem, são a base que sustentam, como a uma árvores, mas sou com o as folhas que, cedo ou tarde, o vento leva o mais longe que puder. Já pertenço a todos os lugares (que passei ou não) e já não sou de lugar algum…

Deixo a Caravana no meio com a tristeza da partida (ou retorno), a alegria das coisas que vivi e a satisfação de saber que cada centímetro da trajetória me realiza porque, a dispeito de minhas experiências  individuais e víscerais, eu tenho o privilégio de  fazer parte de algo que se tornou maior que os indivíduos que compõem e o show  deve, sempre, continuar.

Aos que ficam, desejo sorte, saúde, sucesso. Torço por todos e cada um e aguardo a volta, certa de que não é possível reencontrar aos que deixei (ao menos exatamente como eram)…

Não pretendo aqui esmiuçar as atividades da Caravana: já tem gente fazendo isso  com maestria e os interessados podem acompanhar no blog.

Tive o privilégio de participar desde o surgimento da idéia quando ainda éramos do movimento estudantil e gestão do Centro Acadêmico de Ciências Sociais da UFBa. Depois de quase dois anos de trabalho, discussões, blefes e glórias, saímos de ônibus de Salvador rumo a 9 países da América do Sul, dia 08/01/10, nós, coordenadores (Danilo, Fabrízzio, Felippe, eu, Rubenilza e Tássia) e os estudantes das diversas áreas de conhecimento que selecionamos.

Como diz Felippe Ramos, nós, baianos, por questões históricas e identitárias, temos o olhar voltado para a África e uma distância, não apenas geográfica, de nossos irmãos latinos. Integração era o tema, mas minha ignorância só não era maior que minha curiosidade.

Sabia que as parcas informações que detenho me chegam de forma enviesada por meios midiáticos tendenciosos (algumas vezes criminalizando movimentos sociais) e que a América do Sul ferve: protestos, movimentos, canais de TV fechados, conflitos, alterações constitucionais, possibilidades de reeleição ad infinitum que são forjadas durante a gestão (alteração das regras durante o jogo), conflito, enfrentamento.

Se, em alguns países, eclodem governos populistas de esquerda, em outros a gestão é de centro (governo de consenso, aliança e cooptação), tentando agradar à classe média sem afastar os movimentos sociais, já no Chile, um governo conservador de direita (não é redundante!) acaba de chegar ao poder democraticamente.

Minha inquietação principal era entender o populismo: seu funcionamento e como se tornam possíveis governos com líderes carismáticos de esquerda que se contrapõem ao governo norte-americano ou a um sistema de produção (num contexto globalizante de economia da dependência), em países de pobreza extrema e que têm como base grande apoio popular.

Seriam esses governos reação ou reprodução (com viés esquerdista) de ditaduras outrora implantadas com o apoio dos EUA? O que significa essa “virada à esquerda”?

Sem dúvida, são movimentos que surgem de camadas distintas, como movimentos campesinos, cocaleiros, indigenistas… Para entender (minimamente) essa questão, é necessário conhecer não apenas a conjuntura política atual, mas como essas sociedades foram historicamente forjadas. Como os invisíveis/indesejáveis sociais foram construídos, como as demarcações políticas (muito claras)  de quem exerce qual papel e de quem detém a autorização (autoridade) da fala foram traçadas.

Seria uma reação à tendência de redução-flexibilização de direitos na construção da sociedade de deveres (no Brasil, defendida pelos Ministros do STF Marco Aurélio e Gilmar Mendes) num contexto de injustiças, poliarquia, miséria, desemprego e sub-emprego?

Tais governos teriam real eficácia e intenção de realizar mudanças estruturais? Como eles lidam com a legitimidade, a legalidade, a dissidência? Lênin e a Revolução Francesa (dentre tantos exemplos) mostraram que a primeira atitude revolucionária ao chegar ao poder é tornar-se conservadora (para manter-se), daí a oposição deve ser calada, anulada, há a fase do fechamento, do terror, se dá a radicalização do processo político.

Como atuam os grupos sociais (outrora invisíveis) no fortalecimento desses regimes populistas que criam condições ditatoriais?

Os movimentos sociais, quando adentram o quadro governamental, acabam se institucionalizando e abrandando? Constroem uma prática política conservadora? Qual a conseqüência dessa mudança?

Encontramos situações inusitadas, pessoas politizadas, comunidades engajadas, coesas. As Madres da Plaza de Mayo me emocionaram por sua generosidade e sabedoria, souberam transformar tragédias familiares numa luta coletiva com uma pauta abrangente e resultados concretos: uma universidade, uma emissora de rádio, geração de empregos e construção de casas populares. O município de  Gualeguaychú me surpreendeu pela solidariedade e persistência que levaram a questão das papaleiras  à Corte de  Haia e pela atuação pacífica, bem diferente das  notícias  e conselhos de desvio de  rota de recebemos.

Trago na mochila exatamente todas as dúvidas que levei, mas também a certeza de que temos muito a ensinar e aprender com nossos irmão latinos e que tive um acesso privilegiado e enriquecedor às suas realidades, seja através das instituições políticas, órgãos diplomáticos, ministros, seja nas universidades, movimentos sociais e nas   conversas com pessoas na rua. Sei também que minha noção de mundo e identidade mudaram: tornei-me uma baiana, mestiça, latino-americana e com muito orgulho!