março 2010


Adoraria aproveitar a oportunidade em que fico mais velha para refletir aqui sobre envelhecimento, vida e agora, mas não tenho tempo…

Deixo apenas uma citação de Borges e uma tela de Goya:

” O tempo é a substância de que sou feito.”

Cronos devora seus filhos

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Tela de R. Magritte

Tela de R. Magritte

O velho sonho: eu sentada numa aula de Política V e o prof. diz: “Max  Weber costumava dizer que fazia ciência para  descobrir até onde ele podia suportar a realidade”. Ele se volta para mim e dispara: “E você, Marcela? O quanto da verdade é capaz de suportar?”

O ambiente é familiar, eu fui aluna de Antônio Oliveira e ele fazia sempre essa citação weberiana desafiadora ao apresentar com maestria e cinismo teorias políticas que punham em cheque Democracia, Poder, igualdade, Feminismo… No sonho, estavam pessoas que foram realmente meus colegas, a mesma sala, o mesmo quadro, as mesmas posições.

Sonho curto, recorrente e perturbador. Não tenho conhecimento suficiente para uma análise psicológica sobre sonho e inconsciente, mas a pergunta me basta. O que me chama a atenção é que o docente extrapola a esfera acadêmica/científica ao se reportar diretamente a mim e não sobre realidade objetiva, mas sobre VERDADE. Creio que revelações científicas, por mais perturbadoras, são muito mais fáceis de digerir que algumas pessoais.

Sei que (como me lembrou um amigo especial), em se tratando de pessoas e relacionamentos, não há uma verdade objetiva. Existem tantas verdades quantos indivíduos e suas percepções singulares de mundo e significados.

A despeito disso, há fatos e situações objetivas e, se o mais perto de que se pode chegar da verdade é buscá-la, para a construção de minhas verdades, preciso de conhecimento profundo de contexto, conjuntura e das percepções (verdades) alheias. Quanto menos lacunas eu deixar a ser preenchida pela minha imaginação pueril, melhor.

Existem formas peculiares de lidar com a realidade e manifestações psicológicas que vão do simples esquecimento (perda da experiência), traumas até a esquizofrenia (construção de realidades descoladas do “mundo real”). Há fenômenos mais amenos como a retração frente a fatos da realidade, a simples negação, a recusa em assimilar fatos óbvios e incontestes.

Essa questão sobre verdade, realidade e a forma como se lida com elas está intimamente imbricada à própria questão da sanidade. Acreditar em mentiras confortáveis, tenham sido contadas por outrem ou imaginadas, tem a ver com escolha, conhecimento, coragem e a capacidade de lidar com fatos concretos na construção da verdade-realidade subjetiva.

Há uma célebre frase (cuja autoria desconheço) que diz que ignorância é uma dádiva. Sempre a achei forte e sua validade depende do sujeito sobre quem se fala: por agora, esta não é a minha escolha e prefiro seguir destroçando miragens, minhas miragens. Ainda que sejam belas, doces, sedutoras, deliciosas e que este seja um processo doloroso, não, obrigada. Belas cenas sem substrato fático não me servem, nem sempre se quer conforto.

Termino este post com a sensação de não ter escrito nada que valha para outrem, mas espero ter conseguido responder ao questionamento oniricamente formulado. Acima disso, o concluo com a esperança de ter exorcizado a pergunta de minha vida.