reflexo retina

Foi tudo muito rápido: a menina conheceu um rapaz pelo Tinder, encontraram-se e ela se apaixonou à primeira vista. Acontece que ela não foi correspondida, o rapaz a machucou, ela insistiu no que sabia que não daria certo, já estava nas mãos do rapaz, e o rapaz terminou com tal menina pelo whats app. Sem lhe dispensar quinze minutos do seu tempo, sem lhe olhar nos olhos.

A menina, que tinha projetado no rapaz todas as virtudes possíveis perdeu o chão, ou melhor, o encontrou porque quando recebeu a missiva do término, desmaiou. O ar lhe faltou literalmente, mas acreditou firmemente que o rapaz estava certo; ela não tinha encantos, ele estava muito além dela. Acontece que ela precisava do olhar dele e, já que não merecia tal olhar, o mundo que ela tinha construído ao redor do rapaz desmoronou e ela desejou morrer.

Acontece que essa menina sempre teve o hábito de escrever e amava fazê-lo porque quanto mais se lia, mais descobria a seu respeito e ela escreveu algo que lhe chamou a atenção: “Eu sempre me vi no reflexo do olhar do outro por isso eu preciso de alguém, eu preciso do olhar de … não suporto minha solidão”.

Finalmente a menina percebeu porque precisava dos outros, simplesmente não suportava sua solidão, sua própria companhia, mas ela se deu conta de que nunca tinha olhado para si mesma, nunca tinha visto a si mesma senão pelo reflexo de outras retinas. Passara a vida buscando aprovação: se destacar para atrair o olhar dos pais, dos professores, dos amigos, dos leitores, dos amores… Era refém de olhos alheios e era o olhar do outro que determinava seu tamanho, seus méritos, sua auto-estima.

Ocorre que quando se dá tanta importância ao outro, nunca se sabe o que vai acontecer quando esse outro perceber que tem um escravo: a natureza humana é cruel e ninguém dá valor ao que tem tão fácil. Finalmente ela sacara que tinha tido muitos senhores, mas percebeu também que eles só existiram porque ela, escrava, se reconhecia enquanto tal. Percebeu o poder absurdo que ela delegava a qualquer um: se a felicidade está onde a colocamos, a dela dependia sempre do afeto de terceiros.

Ela amava a todos e a qualquer um e dedicava tanto amor aos outros que não sobrava para si mesma. Daí ser tão romântica, tão carente, tão fraca, tão fácil. Ela projetava e percebeu que sempre havia amado miragens… Foi mais fundo: percebeu que nunca amara ninguém porque nunca tinha se dado a oportunidade de amar a si mesma, de conhecer o outro, de construir o amor, uma vez que simplesmente se jogava de cabeça nas primeiras impressões.

Percebera que o que que passara a vida confundindo que com o amor era sua carência, sua necessidade de aprovação e vislumbrou que todas as vezes que achava que a vida tinha sido dura com ela, na verdade era ela quem se colocara em tal situação… E como ela maldizia a vida, afinal entregara-se de coração a pessoas que foram muitas vezes cruéis, insensíveis, mesquinhas, egoístas e sádicas e o que mais a impressionou foi que em cada um dos encontros, em cada decepção, sentira vontade de morrer e não de matar. Ela se negava e quanto mais cruel o outro tinha sido, mais ela o afirmava.

Enfim, percebeu-se protagonista da própria história, senhora do seu destino, já não lhe cabia o papel de vítima.

Foi então que a menina se olhou, pela primeira vez na vida, ela se viu, mas o que ela encontrou a agradara tanto que enfim sentiu amor, amor à primeira vista e enfim descobriu o quão preciosa era e decidiu iniciar uma relação de amor consigo mesma que era tão grande que ela levaria para o resto da vida.

A menina, enfim, tornara-se mulher e decidiu parar de vez com seus hábitos auto-destrutivos, decidiu parar de fumar, de se boicotar. Decidira, finalmente, cuidar da sua casa, do seu corpo, do seu intelecto, do seu bem estar e percebeu que tinha o poder para chegar onde bem quisesse e que já não precisava do outro: descobriu o “espelho”. Percebeu que não precisava mais da aprovação de ninguém porque ela se aceitava de uma forma jubilatória e pensou em Nietzsche, enfim ela, que passara a vida o citando, o tinha compreendido e não lamentou nenhum fato da sua existência, parou de blasfemar contra a vida.

Tal mulher se descobriu tão preciosa que percebeu que não dedicaria seu amor a qualquer pessoa. Percebeu que o amor à primeira vista ela só iria experimentar nessa vida consigo mesma e que o amor vem com o tempo, são parcerias construídas com afinidade, boa vontade, reciprocidade, respeito, cumplicidade, lealdade e que não há porque ter pressa… Afinal a menina-mulher havia passado trinta anos para se entender, se gostar.

Passou a ter certeza que ainda ia conhecer muita gente bacana nessa vida, mas que JAMAIS permitiria que outrem determinasse seu tamanho. Enfim percebera que, quando o amor chegasse, ela teria de lidar com as próprias angústias e incertezas e as da outra pessoa, mas que se não conseguisse construir com o outro uma parceria saudável, jamais se negaria novamente, simplesmente seguiria em frente.

Percebera o quanto tinha passado a vida sendo machista e tola, acreditando que sua realização estaria no encontro do amor Shakesperiano, o quanto limitara sua existência, o quanto não havia percebido a importância de suas conquistas, de sua família, de seus amigos, de seus desejos, do conhecimento, do prazer, do poder. Percebeu que a graça de sua existência não dependia de “ser mulher” de outrem. Ela reconheceu que precisou de todos e cada um dos seus algozes para ter chegado a tal entendimento sobre si mesma, mas não sentira gratidão por nenhum deles, sentira apenas o prazer de estar viva.

E ela se percebeu tão auto-suficiente que já não precisa do blog (embora precisasse fechar o ciclo e despedir-se dele), não precisa mais dos leitores, dos aplausos, das plateias ou dos elogios, não precisa mais impressionar a ninguém porque ela havia conseguido encantar e impressionar a si mesma.

O CORVO
(Edgar Allan Poe)

“Profeta”, disse eu, “profeta – ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!”, eu disse. “Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o corvo, “Nunca mais”.

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!