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Considero Lacan muito radical ao afirmar que; “A palavra entra quando o sexo falha.” Entretanto, concordo com ele que, quando maior a necessidade de palavras, explicações, mais sintomático é de que as coisas não andam lá muito bem entre os pombinhos. Percebo em certas discussões (excesso de palavras) uma necessidade de investigar, esmiuçar, desnudar o parceiro por completo.

É quase um acinte querer ir tão fundo na individualidade de outrem, por mais próximos que sejamos: todos guardamos segredos, medos e mistérios que são nossos e apenas nossos e fazem parte da nossa essência. Entretanto, somos egoístas e dane-se a privacidade alheia porque, para conhecer nosso parceiro, sua palavra não basta, palavras são só palavras: queremos as intenções afetivas por trás do discurso manifesto (o que é impenetrável) e, para além disso, nossa insegurança quer tornar o outro previsível. Daí darmos tanta importância à sua vida pregressa: precisamos enquadrá-lo, rotulá-lo, saber o que podemos esperar dele. Só assim poderemos decidir se a relação vale a pena, se queremos correr os riscos que ela nos acena; seja avaliando através dos padrões de comportamento do outro, seja descortinando algum sentimento/situação que julgamos que o outro ainda não superou.

Ocorre que aí residem algumas ciladas: o ser humano NÃO está fadado à repetição, ao que se chama na Psiquiatria de ritmo base; quando menos se espera ocorre o REVERSO e o indivíduo age/sente/pensa de forma diversa e até oposta da que estava habituado. É a criatividade humana, o arbítrio, sua capacidade de aprender com suas experiências. Outra questão é a superação: cada um tem um ritmo e o tempo cronológico pouco importa, aqui vigora o tempo “lógico”; há pessoas que superam uma situação traumática tão logo a compreendam enquanto tal e o fazem de tal forma que é um processo irreversível. Nenhum de nós está apto a determinar se outro superou ou não um fato, quer o mesmo tenha ocorrido há dez anos, quer tenha ocorrido há três dias.

Esquadrinhar o outro é ineficaz; crer na previsibilidade de outrem é desconsiderar exatamente o que nos torna humanos; conhecer (e não devassar) o outro isso sim é gostoso e imprescindível no processo de encantamento. Como disse Hitler em Mein Kampf (pois é, não costumo jogar fora a criança com a água do banho):

“Você só luta pelo que você ama;
Você só ama o que você admira;
Você só admira o que você conhece.”

Vivemos a era da razão e o exercício acima referido, de quase querer esgotar o conhecimento acerca do parceiro, é quase uma metodologia de pesquisa que coloca o outro no papel de objeto, todavia, por mais racionais que sejamos, tal lógica não se aplica aos sentimentos. Não há fórmulas, probabilidades, algoritmos, justificativas na esfera do afeto. Esqueçamos, neste âmbito, o paradigma Newton-Cartesiano: não podemos racionalizar sentimentos. O amor sempre será um salto no escuro.