Eros_et_thanatos

Horário do Fim

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

Mia Couto, in “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

A morte cala: com o tema em minha cabeça, passei longos instantes sem saber o que escrever. Exatamente da mesma forma como não sei o que dizer para consolar outrem que lida com a mesma.

Poderia discorrer sobre o fato de que a morte é mal irreparável da nossa existência, que cedo ou tarde teremos que lidar com o tema e de que todas as civilizações possuem em seu sistema explicativo total de mundo um papel muito importante para a mesma com rituais e explicações das mais diversas.

A grande questão é que, para muito além da dor, da revolta, do pavor de “perder” alguém (com o intrínseco luto – e vivermos a dor é importante porque mostra que estamos em contato com a realidade) desnuda a EFEMERIDADE DA NOSSA PRÓPRIA EXISTÊNCIA… e como lidamos mal com o que é efêmero, quanto mais nossas próprias vidas!!!!

Gosto muito de uma passagem de S. Freud: “Se quiseres poder aceitar a vida, fica pronto para aceitar a morte”. A morte se impõe e nunca estaremos prontos para ela, mas não há outra saída senão aceitá-la, posto ser fato inexorável da condição humana, e seguir em frente.

Cito ainda as palavras de meu pai, Marcelo Machado; “Contra a morte, só a vida!” Que a certeza da morte não nos prenda a bolhas e paranoias, mas que sirva para que saibamos (ou tentemos) viver com plenitude, construir o significado da própria existência, buscar o que desejamos, transpondo todas as barreiras e, dessa forma, construir o próprio sentido das nossas vidas. Talvez seja essa a grande piada: é a morte quem dá sentido à vida.

Certamente, não estaremos prontos também para a nossa própria morte  (decerto virá num momento inoportuno porque não há momento oportuno para ela). É verdade, morreremos, mas que antes disso vivamos!!! Vivamos a plenos pulmões, sigamos: superando nossos medos, buscando (onde quer que a coloquemos) nossa felicidade e, talvez o mais importante, sendo fiel a nós mesmos.

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Este blog foi abandonado por muito tempo, anos… A autora, não estava num longo hiato criativo, estava em dúvida se deveria continuar a escrever…

As dúvidas se foram, estou de volta e cheia de novidades: vários e vários textos e temas na cabeça, mente e coração: assuntos encantadores, revoltantes, em suma: humanos.

Hora de quebrar esse silêncio…

Aguardem! 😉

Adoraria aproveitar a oportunidade em que fico mais velha para refletir aqui sobre envelhecimento, vida e agora, mas não tenho tempo…

Deixo apenas uma citação de Borges e uma tela de Goya:

” O tempo é a substância de que sou feito.”

Cronos devora seus filhos

Tela de R. Magritte

Tela de R. Magritte

O velho sonho: eu sentada numa aula de Política V e o prof. diz: “Max  Weber costumava dizer que fazia ciência para  descobrir até onde ele podia suportar a realidade”. Ele se volta para mim e dispara: “E você, Marcela? O quanto da verdade é capaz de suportar?”

O ambiente é familiar, eu fui aluna de Antônio Oliveira e ele fazia sempre essa citação weberiana desafiadora ao apresentar com maestria e cinismo teorias políticas que punham em cheque Democracia, Poder, igualdade, Feminismo… No sonho, estavam pessoas que foram realmente meus colegas, a mesma sala, o mesmo quadro, as mesmas posições.

Sonho curto, recorrente e perturbador. Não tenho conhecimento suficiente para uma análise psicológica sobre sonho e inconsciente, mas a pergunta me basta. O que me chama a atenção é que o docente extrapola a esfera acadêmica/científica ao se reportar diretamente a mim e não sobre realidade objetiva, mas sobre VERDADE. Creio que revelações científicas, por mais perturbadoras, são muito mais fáceis de digerir que algumas pessoais.

Sei que (como me lembrou um amigo especial), em se tratando de pessoas e relacionamentos, não há uma verdade objetiva. Existem tantas verdades quantos indivíduos e suas percepções singulares de mundo e significados.

A despeito disso, há fatos e situações objetivas e, se o mais perto de que se pode chegar da verdade é buscá-la, para a construção de minhas verdades, preciso de conhecimento profundo de contexto, conjuntura e das percepções (verdades) alheias. Quanto menos lacunas eu deixar a ser preenchida pela minha imaginação pueril, melhor.

Existem formas peculiares de lidar com a realidade e manifestações psicológicas que vão do simples esquecimento (perda da experiência), traumas até a esquizofrenia (construção de realidades descoladas do “mundo real”). Há fenômenos mais amenos como a retração frente a fatos da realidade, a simples negação, a recusa em assimilar fatos óbvios e incontestes.

Essa questão sobre verdade, realidade e a forma como se lida com elas está intimamente imbricada à própria questão da sanidade. Acreditar em mentiras confortáveis, tenham sido contadas por outrem ou imaginadas, tem a ver com escolha, conhecimento, coragem e a capacidade de lidar com fatos concretos na construção da verdade-realidade subjetiva.

Há uma célebre frase (cuja autoria desconheço) que diz que ignorância é uma dádiva. Sempre a achei forte e sua validade depende do sujeito sobre quem se fala: por agora, esta não é a minha escolha e prefiro seguir destroçando miragens, minhas miragens. Ainda que sejam belas, doces, sedutoras, deliciosas e que este seja um processo doloroso, não, obrigada. Belas cenas sem substrato fático não me servem, nem sempre se quer conforto.

Termino este post com a sensação de não ter escrito nada que valha para outrem, mas espero ter conseguido responder ao questionamento oniricamente formulado. Acima disso, o concluo com a esperança de ter exorcizado a pergunta de minha vida.

A persistência da memória- tela de Salvador Dalí

Minha relação com o tempo é muito peculiar, tenho a sensação de  que ele me consome, devora meus vínculos, destroça os sentimentos.  Sou aflita, ansiosa, hiperativa: talvez seja o medo da morte, talvez seja o medo da vida. Outra coisa que freqüentemente me toma horas do dia (e da noite) é pensar sobre recordações e esquecimento, necessidade e desejo. Tenho problemas de memória: esqueço nomes, rostos, fatos, eventos…  Volta e meia alguém me pergunta se esquecer  é um problema, sempre  respondo que é uma solução.

Há poucos posts atrás, escrevi:

É engraçado o apego desesperado que temos a fatos do passado e a nossa recusa em aceitá-los enquanto tais, seja um amor perdido, seja um amigo que já não compartilha conosco ideais ou convivência. A forma como protegemos nossas recordações, construímos relicários e não nos libertamos de pessoas, padrões ou conceitos (por mais caducos que sejam) nos faz carregar muito peso; lembranças, mágoas, rancores, remorsos que não apenas implicam em sofrimento como nos distrai do presente.

É preciso viver de forma intensa e altiva o que a vida nos trouxer ou os labirintos que desenhamos sem nos perder nas lamentações, ressentimentos, piedade de si ou saudosismo, se recusar a viver nos paraísos perdidos ou das miragens de outrora, sem perder o sono e o equilíbrio pelos fantasmas do pretérito. Verdade que a capacidade de lembrar nos faz humanos, mas desconfio que não entendemos ainda a importância de esquecer… (Minha Bolsa de Mão- Marcela Isis)

Tava pensando num lindo filme chamado O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças hoje e  foi um boa surpresa abrir a um livro Hesse e encontrar nele a minha aflição. Segue abaixo a citação e outras de quem também conhece/conhecia o real significado do esquecimento:

“Toda a história do mundo não é mais que um livro de imagens refletindo o mais violento e mais cego dos desejos humanos: o desejo de esquecer.” Hermann Hesse.

“Abençoados sejam os esquecidos, pois tiram maior proveito dos equívocos.” Friederich Nietzsche.

“Eis a nossa sina:  esquecer para ter passado, mentir para ter futuro.” Mia Couto,

Anteontem, numa festa de bota-fora de um prezado amigo (que me ensinou o valor da cultura popular), conheci a um jovem psicólogo que me indicou, em meio ao bom som da  Banda  Panos e Mangas e a uma conversa sobre cinema, o filme Die Welle ( A Onda).

Tenho prestado atenção no cinema alemão e me encantado com filmes como The Edukators e Das Experiment. Fiquei tão empolgada que, quando cheguei à minha casa às  3:00 hs da manhã, fui tentar baixar o filme (óbvio que não consegui, já que não sou extamente um gênio da informática).

Embora ambientado na Berlim contemporânea, o filme, do diretor Dennis Gansel, baseia-se num episódio real que aconteceu nos EUA, em 1967 com o professor Todd Strasser. Desconcertante é o fato de que poderia ter acontecido em qualquer lugar.

O professor Rainer Wenger, acostumado a trabalhar com a matéria Anarquismo,  se vê obrigado a lecionar Autocracia num dado semestre. No primeiro dia de aula, ao provocar os alunos sobre o tema, eles respondem de forma apática, consideram o tema óbvio, esgotado e anacrônico.

O alunado é uma amostra da juventude típica de uma sociedade que atomiza, de uma geração individualista em um mundo competitivo, que preza marcas e status e que “não tem pelo que lutar, o assunto mais procurado no Google é a Paris Hilton”. Logo, eles rechaçam a possibilidade de ressurgimento de sistemas totalitários e excludentes.

Rainer propõe uma experiência durante uma semana: ele seria o líder absoluto (conforme escolha dos alunos) e estabelece uma série de mudanças: o lugar onde cada um deveria sentar-se, a forma de falar, expulsa os discordantes. O processo continua: eles passam a ter uma farda, um símbolo, uma saudação e, de repente, estão marchando na sala de aula, obedecendo fervorosamente às ordens do carismático líder.

A experiência muda as vidas dos envolvidos, aplaca suas demandas, preenche seus vazios, ganha notoriedade, atrai perplexidade. Não é mais apenas  uma experiência pedagógica.

Eles se autodenominaram A Onda e tornam-se um grupo coeso, fechado, que se protege e exclui dissidentes. Da associação, do sentimento de identidade, grupo e pertencimento, passam à intolerância e, os extremistas, beiram o fanatismo.

O filme desnuda como a manipulação de grupos é simples e possível, ainda mais através da ação participativa, da disciplina e do carisma. Tema que, se não é novo, não é anacrônico e é uma metáfora que se aplica muito bem à psicologia das massas e à servidão voluntária: seja na Alemanha nazista, na Itália fascista, no período stalinista, no Ku Klux Klan, no Baden Meinhoff, nos governos neo-populistas sul-americanos. E, ao menos em se tratando do efeito manada e na capacidade de fazer absurdos, nas torcidas de futebol, nos linchamentos causados por comoção popular, no caso da UNIBAN…

No filme, as coisas saem do controle e o professor desmascara a ideologia autoritária dos jovens (que se supunham vacinados):

Vocês trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pode ficar impassível enquanto milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em “A onda’. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho”.

Na vida real, nem sempre há alguém desmascarando a manipulação e a intolerância que se  escondem atrás  de palavras bonitas  como justiça, união, superioridade, raça, padrão,  grupo, partido, normal, bem comum, moral e com as  quais estamos (irracional e) visceralmente envolvidos. Raramente há alguém “de dentro” convidando-convocando à auto-crítica ou ouvidos dispostos a escutar e refletir, ao invés de reprimir imediatamente a discordância…

Ao moço que me indicou, obrigada, realmente é um filme estimulante. Como minha memória me prega peças, não consigo lembrar teu nome, mas, se um dia você ler a este post, espero que se dê conta de que, em menos de  24 hs, eu assisti à tua indicação.

Desde que saí de Salvador, com poucos amigos e muitos conhecidos no ônibus, sabia que não regressaria a mesma. Tinha certeza de que a distância de casa, da família, dos amigos, a convivência com pessoas e paisagens diferentes me alterariam de alguma forma.

Dias de estrada, situações inusitadas, esdrúxulas, diálogos, chiliques e, aos poucos, os desconhecidos de outrora se tornavam parceiros de jornada, companheiros, amigos de infância. Queríamos entender e olhar e o fizemos juntos, gritamos, passeamos, brigamos, nos divertimos, cuidamos uns dos outros. Aprendemos com a diversidade, praticamos a paciência, a alteridade, a cooperação, a tolerância.

Com pessoas de áreas de estudo diferentes, cresci muito intelectualmente: engenheiros, médico, jornalistas, mestres, doutorandos, historiador, arquiteto, cineasta, fotógrafa, designer, especialistas em relações internacionais, mas esse aprendizado não se compara com outro verdadeiramente indelevével: experimentar o mundo por estes olhares diferentes, estes mundo diferentes (e como eram díspares, enriquecedores, únicos).

Passei muito tempo olhando para fora, mais ainda olhando para dentro.  Aprendi a ouvir o outro, a me importar, a ser menos egoísta e pragmática, a brigar pelas minhas opiniões mantendo o respeito pelos discordantes, a dialogar, ao invés de  debater, a estar aberta ao convencimento.

Vivi momentos de fome, angústia, exaustão, mas também momentos intensos, insanos e felizes. Aprendi a valorizar a presença e o bem estar de quem estava ao lado, oferecendo cobertor,  falando besteiras, comentando, distribuindo biscoitos, perguntando se eu almocei direito, simplesmente dividindo, convivendo.

Na hora de voltar para casa (por motivos de saúde e no meio da viagem), percebi que retornar era tudo o que eu não queria e como seria doloroso abandonar a Iniciativa e os novos amigos, principalmente alguém especial, desconcertante e autêntico, com quem dividi confidências, músicas, conselhos, angústias, risadas, moedas, maluquices, frio, fernê, pisco, caminhos, cerveja, água, farras, desabafos, cigarros…

Se os hábitos permanecem, os desejos não. Dei-me conta de que sou do mundo, que nessa viagem-processo mudei, já não prezo a vida que eu queria, os valores que carregava, que não quero mais as mesmas presenças. A verdadeira viagem para mim não foi a mudança das paisagens, foi a mudança de olhar.

Entendi que preciso me jogar nessa vida, preciso de liberdade e novidade e que, se tenho raízes firmes, elas já não me prendem, são a base que sustentam, como a uma árvores, mas sou com o as folhas que, cedo ou tarde, o vento leva o mais longe que puder. Já pertenço a todos os lugares (que passei ou não) e já não sou de lugar algum…

Deixo a Caravana no meio com a tristeza da partida (ou retorno), a alegria das coisas que vivi e a satisfação de saber que cada centímetro da trajetória me realiza porque, a dispeito de minhas experiências  individuais e víscerais, eu tenho o privilégio de  fazer parte de algo que se tornou maior que os indivíduos que compõem e o show  deve, sempre, continuar.

Aos que ficam, desejo sorte, saúde, sucesso. Torço por todos e cada um e aguardo a volta, certa de que não é possível reencontrar aos que deixei (ao menos exatamente como eram)…