trinta

Não sei se o mundo está degenerando, nem me é lícito acusar os jovens de hoje por não pensarem no futuro (a não ser naquele imediato, seu, não do mundo). As atuais expressões culturais e estilos de vida e comportamento dos jovens já não representam a mudança, muito menos a contestação, esta que aparece mais como teatro no panorama do consumo. A juventude perdeu beleza…

Em maio de 68 os estudantes insurretos de Paris sonhavam: ‘quando penso na revolução, quero fazer amor’. Hoje, quarenta anos depois, a juventude – acalentada pelo consumo fácil de artigos de moda e de artes comerciais – já não acredita na realidade de seus próprios desejos. Vivemos num mundo que está mais em colapso do que em crise, cheio de injustiças e de violência, repleto de armas, e, contudo, o jovem hoje baseia e alicerça toda a sua vida, todo um projeto de existência, num planejamento automático dirigido unicamente à formação profissional e à ascensão social e financeira. O capital é a autoridade da qual ninguém desconfia, tampouco questiona.

Mesmo em 68, as declarações e anseios eram essencialmente subjetivos: ‘anúncios públicos de sentimentos e desejos privados’ (HOBSBAWM, 1994). Já denotavam, portanto, uma crescente desconfiança nas organizações políticas quando não a sua completa rejeição. De lá para cá, vida e juventude se confundiram. ‘Heróis’ – Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain – foram vitimados por um estilo de vida fadado à morte precoce. Guerras acabaram e outras começaram. Novas tecnologias transformaram ainda mais o cotidiano, diminuíram as distâncias e comprimiram o tempo… mas os jovens, mesmo com toda a História desse breve intervalo de quarenta anos, não são, hoje, mais do que milhares de peões nos tabuleiros do capitalismo, condicionados a se tornarem gerentes nas bases do sistema que nos resta. A vida inteira cabe nos trinta segundos da propaganda da TV.

Não houve a revolução! não ruíram os países, tampouco as estruturas de poder. Talvez, ao longo desses últimos anos, dos quais vivi mais de trinta, a única coisa que aparenta estar ruindo de verdade é o ‘humano’…

Mas sempre teremos Paris…

Não pretendo aqui esmiuçar as atividades da Caravana: já tem gente fazendo isso  com maestria e os interessados podem acompanhar no blog.

Tive o privilégio de participar desde o surgimento da idéia quando ainda éramos do movimento estudantil e gestão do Centro Acadêmico de Ciências Sociais da UFBa. Depois de quase dois anos de trabalho, discussões, blefes e glórias, saímos de ônibus de Salvador rumo a 9 países da América do Sul, dia 08/01/10, nós, coordenadores (Danilo, Fabrízzio, Felippe, eu, Rubenilza e Tássia) e os estudantes das diversas áreas de conhecimento que selecionamos.

Como diz Felippe Ramos, nós, baianos, por questões históricas e identitárias, temos o olhar voltado para a África e uma distância, não apenas geográfica, de nossos irmãos latinos. Integração era o tema, mas minha ignorância só não era maior que minha curiosidade.

Sabia que as parcas informações que detenho me chegam de forma enviesada por meios midiáticos tendenciosos (algumas vezes criminalizando movimentos sociais) e que a América do Sul ferve: protestos, movimentos, canais de TV fechados, conflitos, alterações constitucionais, possibilidades de reeleição ad infinitum que são forjadas durante a gestão (alteração das regras durante o jogo), conflito, enfrentamento.

Se, em alguns países, eclodem governos populistas de esquerda, em outros a gestão é de centro (governo de consenso, aliança e cooptação), tentando agradar à classe média sem afastar os movimentos sociais, já no Chile, um governo conservador de direita (não é redundante!) acaba de chegar ao poder democraticamente.

Minha inquietação principal era entender o populismo: seu funcionamento e como se tornam possíveis governos com líderes carismáticos de esquerda que se contrapõem ao governo norte-americano ou a um sistema de produção (num contexto globalizante de economia da dependência), em países de pobreza extrema e que têm como base grande apoio popular.

Seriam esses governos reação ou reprodução (com viés esquerdista) de ditaduras outrora implantadas com o apoio dos EUA? O que significa essa “virada à esquerda”?

Sem dúvida, são movimentos que surgem de camadas distintas, como movimentos campesinos, cocaleiros, indigenistas… Para entender (minimamente) essa questão, é necessário conhecer não apenas a conjuntura política atual, mas como essas sociedades foram historicamente forjadas. Como os invisíveis/indesejáveis sociais foram construídos, como as demarcações políticas (muito claras)  de quem exerce qual papel e de quem detém a autorização (autoridade) da fala foram traçadas.

Seria uma reação à tendência de redução-flexibilização de direitos na construção da sociedade de deveres (no Brasil, defendida pelos Ministros do STF Marco Aurélio e Gilmar Mendes) num contexto de injustiças, poliarquia, miséria, desemprego e sub-emprego?

Tais governos teriam real eficácia e intenção de realizar mudanças estruturais? Como eles lidam com a legitimidade, a legalidade, a dissidência? Lênin e a Revolução Francesa (dentre tantos exemplos) mostraram que a primeira atitude revolucionária ao chegar ao poder é tornar-se conservadora (para manter-se), daí a oposição deve ser calada, anulada, há a fase do fechamento, do terror, se dá a radicalização do processo político.

Como atuam os grupos sociais (outrora invisíveis) no fortalecimento desses regimes populistas que criam condições ditatoriais?

Os movimentos sociais, quando adentram o quadro governamental, acabam se institucionalizando e abrandando? Constroem uma prática política conservadora? Qual a conseqüência dessa mudança?

Encontramos situações inusitadas, pessoas politizadas, comunidades engajadas, coesas. As Madres da Plaza de Mayo me emocionaram por sua generosidade e sabedoria, souberam transformar tragédias familiares numa luta coletiva com uma pauta abrangente e resultados concretos: uma universidade, uma emissora de rádio, geração de empregos e construção de casas populares. O município de  Gualeguaychú me surpreendeu pela solidariedade e persistência que levaram a questão das papaleiras  à Corte de  Haia e pela atuação pacífica, bem diferente das  notícias  e conselhos de desvio de  rota de recebemos.

Trago na mochila exatamente todas as dúvidas que levei, mas também a certeza de que temos muito a ensinar e aprender com nossos irmão latinos e que tive um acesso privilegiado e enriquecedor às suas realidades, seja através das instituições políticas, órgãos diplomáticos, ministros, seja nas universidades, movimentos sociais e nas   conversas com pessoas na rua. Sei também que minha noção de mundo e identidade mudaram: tornei-me uma baiana, mestiça, latino-americana e com muito orgulho!