Peter Pan e Sininho

Numa destas manhãs de sábado, eu estava atrapalhando Pablo Jones e outros amigos que estudavam para um concurso, quando começamos a falar da nossa opção por cursar Direito. Alguém disse “Acho que foi para agarrar mulher e beber cachaça”, tive então que ser sincera: “Entrei para um encontrar um marido, mas as coisas não aconteceram e eu tive que estudar, as provas têm animus ferrandi”.

Foi nesse contexto que nos demos conta de que estamos concluindo o curso e do quanto nossas vidas mudarão em breve. A formatura traz o peso de amadurecer, é o fim de um ciclo e de nossa identidade de estudantes, é uma região de limbo, de transição, de fronteira, de onde vislumbramos o porvir: o início de uma nova fase metafórica e literal em que o papel a ser desempenhado é completamente novo.

Ocorre a intensificação da responsabilidade e das expectativas (nossas e alheias): a partir de agora é necessário construir um nome, uma carreira, patrimônio, a atingir estabilidade, ser bem-sucedido, seguir a fórmula coletiva de felicidade.

No afã de construir o futuro, pode-se aniquilar o agora e na busca pelo status e pelo dinheiro, podemos confundir os meios com os fins. Neste contexto de incertezas, alguns se questionam o que realmente querem e o que foi introjetado, ensinado que deveriam querer. Tentam raspar camadas de verniz numa tentativa de autoconhecimento, a aplicação da idéia nietzscheniana de “tornar-se o que é”.

Tornar-se adulto é um processo irreversível, mas não queremos sê-lo, não agora, não essas entidades enrijecidas, pesadas, taciturnas, incapazes de recomeços. Envelhecer é ainda mais cruel numa sociedade que cultua a juventude.

Alguns sobrevivem na simulação, querem ser jovens para sempre: rostinhos neotênicos, botox, bermudas e musculação. Procuram incansavelmente a fonte da juventude, querem brilho e vitalidade, congelar o tempo, uma dose imediata de aventura e irresponsabilidade.

O caminho é inexorável, mas pedimos (ou exigimos) que o relógio biológico congele, que o tempo pare, queremos um refúgio na Terra do Nunca. Somos sinceros Peter Pans temendo o crocodilo Tic Tac – aquele que engoliu um relógio…

A despeito de nossos desejos, a vida implica em uma origem e um fim, um sentido, uma continuidade. No entanto, nossa vontade é ultrapassar nosso próprio fim para onde não há qualquer determinação, quebrar a linha e nos projetar do outro lado do espelho. Lá onde tudo perambula indiferentemente de causalidade, sem nostalgia nem uma fé desesperada no futuro, afinal as promessas deste seguem as mesmas trilhas das lembranças do passado: desaparecem, são meros vestígios do real (que se reduz ao agora).

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